domingo, 19 de junho de 2016

O resultado e o jogo. Da base para o topo por ordem da Federação

Por aqui sempre fomos tendo em conta que o jogo era muito mais do que o seu resultado final. E quem olha para os dois primeiros resultados que a nossa selecção apresentou no Euro poderá ficar espantado e insatisfeito por dois motivos: 1) Pelo resultado. 2) Pelo que o jogo nos indiciou na forma de comportamentos colectivos e individuais dos jogadores.

O que a mim aflige realmente na selecção portuguesa não é a falta de qualidade dos jogadores à disposição do seleccionador nacional. Porque tirando uma ou outra opção é difícil (considerando as lesões) dizer-se que não são estes os melhores 23 para jogar o europeu em França. Temos qualidade para formar uma linha defensiva competente, um meio campo bom ao nível do rigor defensivo e criativo, e um ataque versátil e dinâmico nas suas acções. O que me aflige também não é o resultado, ou aquilo em que o resultado se poderia ter traduzido. É por demais evidente que Portugal foi a única equipa que poderia, tendo em conta as ocasiões criadas e concedidas, ter saído vitoriosa de qualquer um dos empates que somou até ao momento. Não é por aí. Tão pouco são as opções de Fernando Santos em termos de sistema de jogo, ou a composição para o onze inicial. Claro que, tenho a ideia de que com uma ou duas opções diferentes a coisa poderia melhorar. Mas, o maior problema, aquele de que ninguém fala, continuará. E esse problema vem de bases, e por isso nunca é demais relembrar Breitner em discurso directo (carregue no link). O que aflige realmente no jogo de Portugal é a pouca capacidade que temos para fazer isto:

video

Ou seja, resolver os problemas que o jogo nos dá de forma colectiva. Usar o colega para dividir, e resolver o lance. Pensar, como é que vou usar o posicionamento  do meu colega para tirar este/s gajo/s da frente? Passo-lhe e fujo, passo e fico? Não passo e vou eu, porque ele simulou que ia e levou dois com ele? Como é que me posiciono para dar mais hipóteses ao meu colega de resolver o lance com sucesso? Estas são questões que deveriam fazer parte de cada escolha que os nossos jogadores fazem com e sem bola, no ataque ou na defesa, que dificilmente passa por um número suficiente deles para que se possa traduzir num jogo verdadeiramente colectivo. O sucesso de Portugal tem vindo sobretudo do mérito e da qualidade individual de alguns atletas. O que fazemos em conjunto é residual. E o problema maior está no topo da cadeia, na federação. E em tudo aquilo que a mesma entende fazer parte das suas responsabilidades ou não. A federação tem como principal objectivo melhorar a modalidade no país, e para tal, o caminho a seguir é o da escolha de uma determinada matriz de jogo. Não interessa qual, interessa que se escolha uma. Interessa que todos na federação entendam esse jogo que se quer jogar, e com isso façam as escolhas para todas as selecções do tipo de jogador para jogar o jogo que se quer. Tudo começa aí, uma ideia comum. Jogadores que procurem pela mesma matriz, pelos mesmos estímulos. No fundo, como se deve fazer nos clubes só que num prazo muito mais longo, pelo tempo que não é permitido de treino nas selecções. A partir daqui tudo se desenvolve. E nunca mais a decisão de convocar X e não Y passará apenas pela figura do seleccionador, porque toda uma instituição estará por dentro do processo e por isso em condições de participar nele. E mesmo a forma como a Federação educa, e forma, os novos treinadores que no fundo são os que vão começar a trabalhar com a base e com os jogadores será diferente. Diferente na medida em que será direccionada para que os treinadores trabalhem e desenvolvam um determinado tipo de skills, viradas para o tipo de jogador que se quer para jogar da forma que se escolheu jogar. Sem esse passo fundamental, sozinho ninguém conseguirá mudar nada. Por mais qualidade que tenham alguns clubes na formação, nas bases. Por mais qualidade que um ou outro treinador venha a evidenciar no nosso campeonato. Por mais talentos soltos que vão surgindo ao longo do tempo, esses onze talentos continuarão sem se conseguir entender em campo. Sem a tal linguagem comum que permitirá fazer com que todos estejam sempre perfeitamente identificados com o que o colega de equipa pretende fazer. Tuchel dizia numa entrevista que nunca iria deixar de copiar os melhores treinadores do mundo, porque o objectivo dele era ser como eles. Se Portugal quer ser verdadeiramente relevante no futebol não deve ter vergonha de pegar na evolução que outros conseguiram e ajustar ao que por cá se pode fazer. Criar um denominador comum, para que a selecção seja muito mais do que onze individualidades soltas em campo. 

11 comentários:

Giacommo disse...

Excelente, é isto mesmo, dos textos mais claros, incisivos e importantes que já se escreveram neste blog. Parabéns.

Nuno disse...

"But in attack I favour more the approach of Bobby, who likes to give freedom to certain players to play their own way, outside the team's system - those two or three players who on their own can make a difference"
Jose Mourinho

Ainda estamos aqui...

https://www.theguardian.com/football/2003/may/18/newsstory.europeanfootball

Vasco disse...

Sublime, obrigado.

Vasco

Robert Robson disse...

Tinha eu acabado de tirar uma sesta e estava entretido imaginar a escrita de um artigo sobre o horrível comportamento dos dirigentes da FPF nas competiçoes mais importantes do futebol portugês, que descobri recentemente, quando surge este artigo.

Sim, sendo optimista, desejo que este artigo seja importante. Parece-me um marco histórico no que é falar de futebol em Portugal chamar à responsabilidade a Federação na definição de um estilo de jogo do futebol português. Naturalmente sujeito a alteração em função do tempo e baseado na definição dos estilos de jogo dos principais clubes da formação (e logo em diálogo com estes - diálogo semi-informal, ao nível dos quadros técnicos).

Posto isto, voltemos ao passado, pela enumeração das minhas descobertas recentes:

1966 - É conhecido que a selecção portuguesa tinha aprazado o jogo das meias-finais do mundial de Inglaterra com a equipa anfitriã sem ter de mudar de cidade (Liverpool, se-bem-me-lembro) mas que houve uma mudança de planos à última da hora. Na vêspera ou ante-vêspera Portugal teve que se deslocar para Londres; o que foi o princípio de vários problemas - os adeptos ingleses descobriram o hotel da selecção, fizeram uma grande barulheira, e a equipa teve que se mudar a meio da noite que antecedeu o jogo para um outro hotel nos arredores de Londres.
O que vim a encontrar na grande entrevista que Eusébio deu ao Expresso aqui há poucos anos foi que foram os responsáveis da federação que a troco de algumas moedas (30?) acordaram a mudança de local. Leiam o artigo.

1984 - Numa entrevista à BTV, o trio Chalana, Carlos Manuel e Diamantino Mirando fala numa parte final no Europeu de França. É dito que os quatro treinadores da comissão técnica que fez o papel de treinador nessa fase final definia os titulares em função de uma disputa entre FCP e SLB.

1986 - Na mesma entrevista, disponibilizada em vídeo ontem, fala-se do Mundial do México. O caso de Saltillo. É revelado que o pagamento diário dos dirigentes era superior ao dos atletas, e que a revolta entre os jogadores foi despoletada quando um director da Adidas em Portugal foi até ao México perguntar a estes se já tinham recebido o pagamento da fornecedora de equipamento. Ora os jogadores, que nessa altura não ganhavam o que ganham hoje, nem sabiam da existência desses dinheiros.

Esta última estória lembra-me o que um amigo meu comentava comigo o outro ano: os nossos estudantes bolseiros de um programa de colaboração tecnológica com uma suoer-universidade andavam a passar dificuldades naquele momento, enquanto os burocratas envolvidos viajavam confortavelmente. Rico empreendorismo.

Blessing disse...

Giacommo, Vasco, obrigado eu.

Abraço

Jorge Gaspar disse...

Eu acho piada á importância que vocês dão á entrevista de Breitner, á ideia da escolha de uma matriz de jogo e á ideia que a mudança terá que surgir na federação. Estão enganados.
Não é por acaso que no lance que dão como exemplo daquilo que temos de conseguir fazer apareça o raphael guerreiro.
Nós, e a maior parte dos países (seja a nível fedarativo ou a qualquer outro nível) não compreendemos totalmente este jogo. Isso explica por exemplo o facto de o Quaresma e o Danilo jogarem na selecção. Aliás, o Danilo foi titular indiscutível de uma das melhores equipas Portuguesas. E vocês acham que o problema é a federação.
Apenas os Espanhóis atingiram o topo a nível de conhecimento de jogo. E nos próximos 50 anos irão dominar (enquanto selecção mas também nas competições europeias de clubes) como mais nenhum país o fez anteriormente. A Alemanha, embora tenha feito muitas coisas acertadas continua a ser aquilo que sempre foi. Um país sempre grande candidato ao titulo com alguns clubes a fazerem coisas engraçadas lá fora e depois com o grande Bayern. Conseguiram contrariar a decadência que estavam a vivenciar no inicio do século, mas a Alemanha depois daquela derrota por 3-0 com Portugal que voçês consideram o ponto de viragem, esteve na final do mundial 2 anos depois, e na final do europeu 8 anos depois. Muito antes de qualquer alteração a nível federativo poder alterar alguma coisa.
A própria Espanha consegue titulos internacionais com treinadores de qualidade bastante duvidosa. A compreensão que a actual geração de jogadores tem do jogo supera todas as falhas que possam existir a nível federativo. Na selecção Portuguesa, vejo jogadores talentosos que não sabem qual é o significado de linha de passe. Como é possível a este nível vermos por vezes que não existe ninguém no meio do ataque a dar uma linha de passe. É o completo desconhecimento daquilo que é o futebol.
Como é possível fazermos a quantidade de cruzamentos que fazemos ainda para mais quando defrontamos a Islândia e a Austria? Temos o suficiente a nível de qualidade técnica, mas falta-nos o essencial, compreensão de jogo.

Nuno disse...

Tudo conta Jorge

Sem duvida que o nosso trio de ataque exemplifica na perfeicao o ideal expressado por Mourinho acima

Ate nao estou a desgostar de muito que a selecao esta a fazer mas acertas na mouche em varias das lacunas que nos estao a custar

Vitor Gomes disse...

Bom post.

Parecem-me óbvias as vantagens de um trabalho de integração/coordenação pela FPF como o que sugerem. Mas se motivar os grandes a trabalhar de determinada forma não é difícil (porque as camadas de formação são uma ferramenta, e não o fim em si), motivar as restantes, que lutam pela sobrevivência, pode ser mais difícil: os métodos "do costume" vão dando resultados e tudo o que importa são os resultados. Com um futebol em tantas dificuldades financeiras, será possível convence-las que a mudança de estratégia vale o risco?

Noutra questão à volta do mesmo problema, o que é FS pode fazer no imediato para melhorar a tomada de decisão dos jogadores? Com a qualidade que há a esse nível do meio campo para a frente, não teria ser visível muito mais?

Mouse disse...

Mouse,

Parte desse trabalho foi feito na década de 90, não houve foi continuidade, vá-se lá saber porquê, podemos não ter ganho nada a nível de séniores mas estávamos no caminho certo.
Na federação contentam-se por ter o melhor em vez de serem os melhores.

Jorge Gaspar disse...

"ah, bom. então concordamos. é que eu fico sempre com a mesma ideia, que o Ricardo Carvalho continua a ser do melhor que temos. parece-me que é dos poucos que entende realmente como se deve comportar em campo e, apesar do menor fulgor físico, continua com uma qualidade espantosa, precisamente porque entende o jogo"

Quando escrevi o comentário acima não tinha lido este comentário no posse, e não sei se este comentário é do Nuno do entredez ou de outro Nuno qualquer, mas vai precisamente ao encontro daquilo que eu penso ser o problema da nossa selecção, um total desconhecimento do jogo, e o problema não está naquilo que Mourinho disse sobre dar liberdade a 2 ou 3 jogadores capazes de fazer a diferença. Eu até acho que a este nível e ainda para mais numa selecção, o treinador que não possa dar um elevado grau de liberdade a todos os jogadores está desgraçado. O problema é que temos na selecção jogadores que não estão preparados para jogar em equipas de topo, e não estão preparados porque não compreendem o jogo que jogam. Veja-se o caso do Nani: Um talento incrível, capaz de jogadas e decisões fantásticas, mas passa a maior parte do tempo a fazer o contrário daquilo que o jogo exige. Do Quaresma então nem se fala. O Quaresma acha que toda e qualquer decisão tem a mesma probabilidade de sucesso.
Neste momento o Ricardo Carvalho é o único jogador Português que tinha lugar na selecção Espanhola. Agora, perguntem aos comentadores, adeptos e outros treinadores de que jogador do onze da selecção preferiam abdicar, ou perguntem, o que preferem, Pepe ou Carvalho?

Blog de Portugal disse...

Jorge, as alterações a nível federativo e a criação de uma matriz de jogo transversal a todas as seleções não é garantia de títulos, tal como não o fazer é garantia que não se vai ganhar uma competição.

Mas se existir essa identidade e essa organização dentro e fora do campo, a começar da base e a ir até ao topo, sem dúvida que estarás sempre mais perto de vencer.

Não há dúvidas relativamente à qualidade dos jogadores das nossas seleções, desde os sub15 à equipa A, e isso é de louvar, tendo em conta a população do nosso país.
Mas Portugal pode ainda fazer muito mais para potenciar o seu futebol. É tudo uma questão de organização e definir um jogar transversal a todos - algo que é ainda mais fundamental numa seleção, por existirem menos treinos.

Alguma coisa já foi feita, mas muito do mérito vai para os principais clubes da formação (Porto, Benfica, Sporting, Braga e Guimarães), que têm +/- a mesma forma de jogar, e onde o profissionalismo e procura pela qualidade de trabalho é muito interessante.

Nos outros clubes, normalmente as coisas não andam tão bem, mas são muito poucos os jogadores que se aproveitam desses clubes.