segunda-feira, 6 de junho de 2016

Thomas Tuchel. Uma parte da visão do homem que orientou uma das mais apaixonantes equipas da temporada finda.

"... Algo que observei no Barcelona com Guardiola... que me impressionou como treinador e como fã.... a sua modéstia! O Barcelona venceu 16, 17 troféus em quatro anos... e ficava o sentimento que independentemente de onde jogassem contra quem jogassem, jogavam por eles próprios, pela performance e para se divertirem e eram modestos no campo, não apenas atacavam mas trabalhavam arduamente na defesa. Dava a sensação que se divertiam como se fossem uma equipa amadora... das que vão de transporte público para os jogos, apesar de terem os carros mais caros..."

"Estão sempre com fome e focados, e continuam modestos em proporção ao seu talento..." sobre o Bayern de Guardiola.

"Eu não colocaria demasiada importância nas palavras dos jogadores nas entrevistas pós-jogo." "e sobre as dos treinadores?" "Só até certa parte..." sobre Hummels e Gundogan referirem o demasiado respeito pelo Bayern como causa do insucesso

"Para vencer o Bayern tens de lhes tirar o que mais gostam. A bola. Para o fazeres tens de acreditar em ti e ter muita coragem..."

"O futebol é muito complexo. Nem sempre a performance corresponde ao resultado. Temos de analisar o que aconteceu e não o resultado..."

"...é perigoso analisar o jogo pelo resultado... o futebol é muito dinâmico, a bola está sempre a mover-se, é dificíl controlar o jogo, o número de golos é reduzido e demasiado acontece de forma aleatória... por isso é um erro olhar apenas para o resultado"

"O mais importante é o processo. O treino diário e como os jogadores se relacionam entre si"

"O campo não tem de estar nas melhores condições... os jogadores devem enfrentar dificuldades. São fantásticas as condições que temos nas academias na Alemanha hoje em dia, mas colocá-los numa zona de conforto também é um grande risco... podemos perder o hábito de ultrapassar obstáculos. Quem é capaz de manter o nível mesmo que o balneário não tenha ar condicionado? Quem consegue manter o nível se tiver de lavar o seu equipamento e conseguir boleia para chegar a horas ao jogo? Onde andam os talentos... para além daqueles que são óbvios...?" sobre o futebol jovem.

6 comentários:

R.B. NorTør disse...

Nos EUA também se debruçam sobre essas questões do último parágrafo:
https://www.theguardian.com/football/blog/2016/jun/01/us-soccer-diversity-problem-world-football

José Ribeiro disse...

Vários estudos apontam para que o "treino intensivo, como aquele realizado pelas crianças que jogando futebol de rua todos os dias, entre os 6 e os 12 anos, é a chave para o desenvolvimento do tipo de inteligência atingida pelos jogadores de altíssimo nível e que será concerteza muito importante fazer regressar para um desenvolvimento do futebol no futuro".

Edson Arantes do Nascimento disse...

Obrigado NorTor, bem interessante!

Acredito que o problema nos EUA começa logo do princípio - eles não têm, regra geral, amor pelo soccer. Então tudo à volta do fenómeno é um bocado desenxabido, como se explica no artigo, é um jogo de subúrbios (nada contra subúrbios, atenção), no sentido que não é visível. Não há cultura de jogo, que se transforma em desconhecimento facilmente. É um jogo sem alma.

Depois:

Há uns dias apareceu aqui mesmo no LE um comentário que dizia "ah espera daqui a bocado vêm os da esquerda e do politicamente correcto" tirar conclusões sobre futebol e bla bla bla (a propósito já não sei bem de quê).

Estive para lhe responder, mas como ando sem paciência, deixei-o ruminar na estupidez. O artigo explica bem as consequências de tudo o que nos rodeia, mesmo no futebol.

O futebol não é uma coisa isolada da vida. Pelo contrário. Portanto, tudo o que está à volta do futebol tem impacto no futebol. É aritmético e aplica-se sempre, em qualquer actividade. O futebol nos EUA é apenas um bom exemplo.

Nos EUA, o desporto profissional é apenas e só um negócio (o desporto amador é separado, tem outras estruturas, nomeadamente nas escolas e universidades e bairros). Contas. Nada mais interessa.

E não tem história antes do negócio - não é como na Europa, África, América Latina. Até hoje o futebol profissional, em Inglaterra, é chamado de "association". Porque a história do futebol não é o profissionalismo, só agora começa a ser, é o associativismo!

Londres é um bom exemplo: todos os bairros têm um clube. E quase todos os clubes de Londres representam um grupo social - os mineiros, os operários, os ricos, os judeus, etc, etc. E é daqui que vem a rivalidade e o amor pelo jogo. As pessoas começaram a juntar-se há 150 anos para beber uns copos e ao fim-de-semana organizar umas farras, com uns jogos de futebol pelo meio.

Alguém ouviu aqui falar das camadas jovens dos Chicagos Bulls ou dos LA Lakers? Pois, não existem. Se por alguma razão imponderável as pessoas de LA começarem a cagar de alto nos LA Lakers - os actuais donos do clube ou vendem a empresa ou tentam levar a franquia para outra cidade.

Toda a gente fala que o basket, por exemplo, é um jogo de negros. Mas então vamos ver os jogos dos anos 1960 e 1970... Se calhar a maioria dos jogadores da NBA eram brancos. O que aconteceu aqui? O que mudou para que os subúrbios tenham invadido e se apossado da NBA (em boa hora)?

Talvez seja importante que os homens do soccer americano olhem para as outras modalidade nos EUA - em vez de se compararem com a Europa do futebol.

Alguém já imaginou a hipótese do FC Porto mudar-se para Vigo e passar a jogar na La Liga com a designação FC Vigo? Os adeptos do FCP prefeririam jogar na Liga Amadora da Ribeira do que aceitar a mudança, fosse qual fosse o argumento.

Enquanto os EUA não entenderem o jogo, e enquanto não o amarem, vão ser apenas o que são agora: robôs a jogar à bola. Com alguns bons jogadores, é certo, mas quase irrelevantes.

Guilherme disse...

Seria possivel deixarem um link para a entrevista do Tuchel?

Muito obrigado e um abr!

Blessing disse...

Guilherme, não, pq está num canal fechado.

abraço

R.B. NorTør disse...

Boas Edson,

Tinha o artigo guardado para partilhar (estava até a ponderar ir para o post do ensinar criatividade no PdB) faz uns dias. O Tüchel é um espectáculo, não só porque vai limpar a Bundesliga para o ano sem Gundogan nem Hummels, mas porque me deu a oportunidade de colocar o link aqui.

E é isso tudo que dizes! A visão do desporto na América é demasiado diferente da Europeia. Quando estava a ler os lamentos dos treinadores e coordenadores em como não conseguem lidar com situações familiares e económicas dos jogadores para trazerem o talento da rua para os relvados estava a lembrar-me de todas as discussões por aqui de como os putos já não têm tempo para jogar na rua e com isso desenvolverem a técnica face ao aleatório.

Na questão do desporto americano acho que há aspectos mais interessantes para serem discutidos e falo de coisas como tectos salariais e sorteios (drafts). O nivelar por cima teria de ser sempre por aí. O trazer equilíbrio. Acaba por ser irónico (e já li algures um artigo sobre isso) que a América, anti-"marxista" por natureza, tenha no desporto um sistema de transferências em que a propriedade é de todos e os próprios atletas federados acabam por ter mais força reivindicativa do que os europeus (veja-se o bloqueio da NBA aqui há atrasado). Coisas que fogem no entanto do jogo jogado... ;)