terça-feira, 5 de julho de 2016

Competência. O salto que o Benfica deu. Fala Nuno Gomes.

Excelente a entrevista de Nuno Gomes à Proscout. Quanto do crescimento dos últimos seis, sete anos do SL Benfica se deveu ao acertar no perfil correcto dos colaboradores para servir o clube? Sobretudo Rui Costa e Nuno Gomes, experientes no relvado e fora dele, "jovens" ex futebolistas capazes de entender e decidir o melhor.

Depois acima de tudo a relação com a bola porque cada vez mais cedo se estão a recrutar jovens jogadores e nestas idades há muitos que fazem a diferença porque se calhar já têm uma evolução física ou uma maturidade diferente porque cresceram mais rápido e nessas idades fazem a diferença mas muitas das vezes acho que o mais importante, acima de tudo, é a relação que eles têm com a bola e com o próprio jogo, os colegas, a maneira de jogar, a maneira de receber a bola, como é que são tecnicamente. Depois a questão física temos tempo para a trabalhar, porque se tu vires um miúdo que sabe jogar à bola, mas que se calhar não faz a diferença naquelas idades porque tem um físico mais débil em relação aos outros, não vamos deixar de continuar a observá-lo, porque damos primazia aos melhores jogadores.

O factor físico é importante até determinada altura porque faz a diferença, nós vemos jovens que se calhar estão mais evoluídos que outros fisicamente e conseguem até determinada fase da carreira fazer a diferença dentro do campo e acho que esses também ajudam os outros a crescer mas não é o mais importante, o mais importante é darmos tempo para que possam crescer da maneira mais natural possível. Sabemos que há jovens jogadores que crescem mais rápido que outros, hoje em dia há técnicas e maneiras de saber o quanto vão os jogadores crescer no futuro. Nós damos importância a esse facto, também é um dos métodos de avaliação, poder saber a altura daqui a uns anos, qual será a evolução física de um jogador, mas lá está, no futebol temos o exemplo do Messi e do Cristiano, que um é mais forte que o outro e são os dois os melhores do mundo, é muito relativo a altura, o peso, a força física, se souberem jogar à bola com os pés [risos]. Acho que uma das armas principais é eles saberem jogar futebol e serem inteligentes a jogar, como é óbvio. É muito relativo, existe a tendência, hoje em dia, de o futebol profissional se tornar cada vez mais físico, é claro que o jogador mais forte fisicamente tem vantagem em relação a outros que não são tão fortes, mas esses menos fortes fisicamente, a maior parte do tempo têm outras armas que esses fortes fisicamente não têm. Nós não nos preocupamos em demasia com essa questão porque sabemos que o jogador de futebol bom, é bom por natureza independentemente do quanto vai crescer ou o quanto forte fisicamente será.

Temos este caso, por exemplo, que na equipa B este ano o plantel tinha muitos jogadores com a idade júnior e que pouco jogaram na fase final do campeonato de juniores mas quanto a mim eles conseguiram ter um ano de segunda liga que se calhar em termos individuais foi melhor para a evolução deles como jogadores do que no campeonato nacional de juniores.

Eu sei que há clubes hoje em dia que estão a pegar nessa ideia e proporcionar aos atletas, momentos diferentes em espaços diferentes que não sejam o sintético, que não seja a relva e acho que até é uma boa ideia porque isso também proporciona uma evolução ao atleta. Em relação aos nossos jogadores, temos pensado também nessas soluções, temos criado ambientes aqui dentro do Caixa Futebol Campus fora do horário normal dos treinos, principalmente aos jogadores que residem aqui poderem também ter actividades diferentes e um pouco aquilo que é o futebol de rua e estão pensadas algumas coisas que poderemos dentro em breve a começar a pôr em pratica, que vai de encontro a essa necessidade dos jogadores não ficarem só formatados para o treino que têm diariamente nas equipas, mas que possam também ser apresentadas outras situações em que lhes permita também estar num contexto diferente e evoluírem não só tecnicamente mas também em jogo com os colegas.

Sim, há quem defenda essa teoria, que há um excesso de treino por posição e formatação dos jogadores em que depois o jogador é habituado a jogar sempre naquela maneira, naquela posição e depois com o passar do tempo só sabe jogar naquela posição e só sabe ter aquelas acções. Nós nos escalões mais baixos ali pelos traquinas, benjamins e infantis temos feito algumas acções internas para contornar essa situação e muitas vezes criamos uma espécie de liga interna onde os jogadores não podem jogar na posição habitual, mas em posições completamente diferentes daquelas em que normalmente jogam no fim de semana. Criamos também treinos em que isto acontece, do lateral direito ir jogar para médio centro e o ponta de lança para central, muitas vezes fazemos esses treinos com jogadores destros a jogar do lado esquerdo ou só com o pé esquerdo por exemplo, para gerar também outras opções, para melhorar também o conhecimento do jogo, para que nessas idades, o defesa possa perceber o que é que o avançado da sua equipa sofre ou o que é que tem de fazer, o lateral sabe assim os movimentos do médio, e não estão apenas formatados ou fechados naquele mundo que é a sua própria posição, para poderem experimentar outras posições. Muitas vezes também dá-se o caso de nós termos agradáveis surpresas de alguns jogadores de que nós à partida olhamos e que definimos que este jogador é desta posição e depois com o passar do tempo percebemos que se calhar pode ter outro rendimento noutra posição. Serve para ver também como eles reagem e para lhes dar o conhecimento do jogo de outras posições.

P.S. - Na barra lateral do lado direito do blog está uma publicidade a uma formação Bwizer com o criador do blog. Creditada para a cédula de treinador. Ainda há algumas vagas disponíveis. Será em Lisboa e dará para se trocar ideias!

4 comentários:

José Moreira disse...

Confesso que fiquei reticente quando Nuno Gomes foi escolhido para a função. Mas ao ler estas palavras, mudei radicalmente de opinião. Gostei bastante.

Rodrigo Morais disse...

"Depois a questão física temos tempo para a trabalhar, porque se tu vires um miúdo que sabe jogar à bola, mas que se calhar não faz a diferença naquelas idades porque tem um físico mais débil em relação aos outros, não vamos deixar de continuar a observá-lo, porque damos primazia aos melhores jogadores."

Há uns temos escrevia(aqui,http://possedebolla.blogspot.pt/2015/02/dificuldades-do-treinador-de-jovens-e.html)o seguinte: " (...) Vou rapidamente ao que considero ser uma questão fundamental e que decorre também desta condição de competição – ninguém vê que não se detetam “talentos” e “potenciais” aos cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze anos, e ainda acrescento, doze, treze anos? Quantos chegam aos escalões de Juvenis e Juniores de um clube grande, fazendo o percurso desde os Benjamins? Provavelmente, detetam-se talentos imediatos que salvaguardam resultados imediatos. Talvez, o facto de os clubes maiores efetuarem uma seleção de “talentos” numa fase que antecede os períodos suscetíveis de desenvolvimento nos seus vários domínios (e esse é um processo ligado ao crescimento e maturação), apenas porque isso garante resultados no imediato, leve a que os que seriam efetivos talentos sejam excluídos e entregues a condições precárias de formação, tanto no que diz respeito às condições materiais, mas também às condições humanas" - hoje escreveria exatamente o mesmo.

Mais, no mesmo texto, respondia o seguinte acerca da importância da velocidade de deslocamento - "Mas achas mesmo que essa velocidade é assim tão essencial para o jogo, que valide a possibilidade de se comprometer o desenvolvimento dos que não são rápidos dessa forma, e são ou podem vir a ser de outra, essa sim central? É que é isso que acontece. E essas crianças, muitas vezes, vão passando ao lado. E nós sabemos lá qual seria o seu desenvolvimento no futuro."

Posto isto, em que condições, esses que continuarão a ser observados, se desenvolverão, para voltar a ser observados?

Falta profundidade!

Blessing disse...

Rodrigo, havendo selecção não há outra forma de o fazer. E não estou a ver os "grandes", ou os "pequenos", os que fazem selecção, fazerem uma selecção onde o primeiro critério seja a capacidade actual onde com a sensibilidade certa se percebem determinadas características que se acham que vão ser importantes no futuro. Não há outra forma de o fazer. Com, ou sem, competição formal essa selecção não deixaria de existir. E não há ninguém no mundo que fosse escolher um jogador que na altura até era mau e depois pode ser top. Isso não existe.

Jorge disse...

Concordo com o Rodrigo e com a resposta do Blessing.
Olhando para o modelo academico, e importante para o desenvolvimento adequado dos jogadores que sejam colocados em ambientes que os desafiem a um nivel adequado.
O problema nao sera o da seleccao dos jogadores actualmente mais fortes pelas equipas de topo, que sao de topo porque fazem essa seleccao, mas por ou nao haver equipas para os jogadores menos fortes ou por essas equipas nao serem bem orientadas. Penso que esse problema se resolve com o aumento de treinadores com formacao adequada para treinar os diversos escaloes de formacao. A situacao optima seria aquela em que cada miudo que queria jogar futebol tenha um clube aonde possa ter o acompanhamento adequado. A medida que os miudos crescem e se desenvolvem iriam mudando de nivel, havendo sempre um ambiente adequado para o seu desenvolvimento. Teoricamente e facil, na pratica custa muito e demora tempo.