segunda-feira, 4 de julho de 2016

Prática e teoria. Vivem uma sem a outra?

O Blessing e o Van Basten que têm ideias firmes, com as quais concordo inteiramente, não deixaram de questionar-me sobre o que pensava sobre a dicotomia prática - teoria. Se vivem uma sem a outra.

Porque o que penso é suficientemente extenso, fica melhor num texto acessível para todos quantos os que nos seguem.

Este é um campo que me interessa bastante, sobretudo porque com os tempos tem havido uma certa modelagem ao que teorizo. Modelagem feita em função do que tenho retirado da prática. A prática é no fundo o que permite validar ou não o que teorizamos. E portanto pode haver teoria sem prática. Mas, será sempre não muito relevante e por vezes demasiado especulativa. Naturalmente que cada contexto é um contexto e nunca temos a possibilidade de experimentar todos para perceber na prática a validade das nossas ideias. Que podem ser melhores ou piores também em função de cada momento / espaço. Mas se há algo que a prática traz é a capacidade de avaliar o que teorizamos e consequentemente proporciona uma evolução. O ponto de chegada será sempre o da teoria mais o que sobrou da prática. É aliás esta necessidade de se experimentar a teoria para que se possa falar com maiores certezas que me levam a, e quem sabe injustamente, duvidar e prestar pouca atenção ao que afirma(m) quem não pisa ou pisou um relvado. Seja a que nível for. Do distrital ao profissional. Porque há demasiado que só se aprende ali.

Mas, haverá prática sem teoria? Questionam.

Impossível. Há que perceber que tudo o que se faz na prática surge da teoria! Seja boa ou má, mas tem sempre suporte na teorização que se faz. 

Exemplo, Jorge Jesus não partilha (regra geral) nada daquilo que é o seu trabalho e é comummente associado a um treinador prático. Sem lado teórico. Nada mais falso! Tudo no seu trabalho advém da teoria! Porque defende com quatro na última linha? Porque joga em 442? Porque pede à última linha para baixar quando não há contenção, e para subir quando portador adversário tem pressão? Tudo o que coloca em prática vem daquilo que teoriza como sendo o melhor. 

Tudo numa unidade de treino vem da teoria. Seja quem for a pessoa em causa! Porquê 5x5 e não correr à volta do campo? Ou o contrário? Porque quem o manda fazer, na teoria crê que tal é o melhor para na prática obter os resultados que pretende.

Teorizar não significa escrever ou publicar. Significa reflectir! Até uma senhora da limpeza teoriza sobre o seu trabalho. Como será mais eficiente ter o quarto limpo num instante? O publicar ou partilhar, seja em blogues, congressos, formações, ou em simples fóruns na internet implica sempre uma vertente teórica. Mas o fazer, mesmo que sem publicação também assim o exige!

P.S. - Estamos a chegar aos 10 mil likes no Facebook. Deem lá uma ajudinha que em breve teremos novidades.

P.S. II - Na barra lateral do lado direito do blog está uma publicidade a uma formação Bwizer, creditada para a cédula de treinador. Ainda há algumas vagas disponíveis. Será em Lisboa e dará para trocarmos ideias!

7 comentários:

José Ribeiro disse...

Este teu post fez me lembrar a teoria do ovo e da galinha.
O que nasceu primeiro? A teoria ou a prática? O Professor Vitor Frade primeiro teorizou sobre a periodização táctica e depois ela foi colocada em prática, ou pela sua experiencia da prática ele teorizou a periodização táctica. Quem o conhece pode responder a esta questão. Gostei da abordagem e do tema em si. Parabéns...

Paolo Maldini disse...

tec, n é aqui que se vai discutir isso

MM disse...

Maldini,

Com mais ou menos alterações, joga-se futebol com estas regras há sensivelmente 100 anos. Recuemos 80 anos no trabalho dum treinador: escolher um 11 e talvez apontar os jogadores que ocupariam as posições no 11 (isto se não fossem os próprios a fazê-lo, era o mais provável). Haveria mais alguma coisa para além de escolher um 11? Até nisto, para o caso dos jogadores das equipas terem valias idênticas, os treinadores de então com as melhores ideias e capazes de melhor reflectir sobre o jogo estariam mais próximos de vencer relativamente aos adversários.

No tempo e na evolução do jogo, o desdobramento em quantidade, complexidade e sofisticação dos processos de uma equipa no jogo é tal que a importância da teoria e a capacidade de reflectir que referes tem uma importância avassaladora sobre tudo o resto. Quando por exemplo dizes que um dos desafios mais difíceis para um treinador é a adopção de um conjunto de exercícios específicos, por si imaginados ou a partir de outros adaptados, que possam no treino estimular as respostas às situações A, B, C, D, E e F que tu queres que eles (jogadores) desenvolvam, o que é isto senão um desafio mental cujo sucesso depende em exclusivo da tua inteligência e entendimento do jogo?

Sem a mente, sem capacidade de pensar, sem boas ideias não existe absolutamente nada, decididamente nalgo tão complexo como treinar uma equipa de futebol. Outras áreas do jogo ou associadas ao jogo já exigirão menos da massa cinzenta. Tu não és melhor do que 80% ou 90% dos treinadores que andam aí pelos melhores clubes da Europa porque a tua prática é mais desafiante que a prática deles. Nem tu precisas da prática deles nem eles da tua para que os venças num confronto de competências, nem tem essa prática qualquer peso no argumento. És melhor porque és mais inteligente e entendes o jogo incomparavelmente melhor. E porque és treinador claro, mas isso é outro assunto: poderias ser exactamente como és e entender o jogo tão bem como entendes que se não fosses treinador de futebol - se não tivesses abraçado a carreira de treinador, nunca estarias minimamente habilitado ou capacitado para treinar uma equipa. Dessem-te uma equipa e ela começaria com -20 pontos ainda antes da prova começar. Ou chegarias ao 1º treino e ficavas a olhar para eles e eles para ti e não saíam dali. Algo que numa escala mais pequena é válido para a senhora da limpeza: se te pedirem para limpar qualquer coisa abririas o armário e além duns garrafões não verias mais nada. Terias de perguntar qual é o produto que serve para quê ou como é que se encaixa o pau da esfregona na coisa que depois se molha na água do balde.

Futebol disse...

Recomendo o autor Edgar Morin ... A prática é o critério da verdade ... Portanto, é a pratica que confirma se uma determinada teoria é válida ou não... Porque se ela não for aplicável então não passa de uma teoria sem sustento... Mas então a teoria vem primeiro que a pratica? ... No meu entendimento a teoria so tem sentido, se for de uma determinada prática... E o Jorge Jesus, está a provar isso... Um homem que estudou (teoria) mas com base na "sua" prática... Ele diz mesmo "nunca li um livro, sobre treino ou sobre táticas" ... Mas ele não teve que começar a estudar e só depois é que foi aplicar?... Ele começou pelo caminho que todos os treinadores devem começar o "self made man" ... Hoje é um vencedor e um treinador convicto das suas ideias... E porque acredita tanto no que faz, transmite essa "emoção" - verdade, para os jogadores... Nasce a admiração e o respeito dos jogadores pelo seu conhecimento... Podemos dizer que é um processo extremamente complexo ... Por isso é que Carl Marx diz "tudo está em rede" ... Para concluir... Acho que uma não vive sem a outra... Mas se um treinador de futebol tiver que escolher, que vá sempre pelo caminho da prática... Porque é ela que vai dizer-lhe a verdade.

R.B. NorTør disse...

Eh pá isto leva-me para infidáveis conversas que nada têm a ver com futebol!

MM, mesmo recuando 80 anos a função do treinador seria sempre mais do que simplesmente escalar o 11. Recuemos ao recreio. Havia sempre um tipo que dava umas ordens ("vai por ali", "mete no "). Concordas que no seu estado bruto seria isto o treinador? Desse ponto de vista, tudo o que se passou nos 80 anos seguintes não seria uma evolução disto, um tentar antecipar o dia do jogo para não estar aos gritos no campo?

Quanto à questão do tópico:
Recuando ao ovo e à galinha (o ovo apareceu primeiro, porque os dinossauros já punham ovos! ;) ) pode-se pois entender que a prática surge antes da teoria. Já do ponto de vista do treinador o meu entendimento é que a teoria surge primeiro. O primeiro passo será o idealizar da coisa («Como será mais eficiente ter o quarto limpo num instante?») só depois se passa à prática («5x5 e não correr à volta do campo»). Podem as duas existir separadamente? Em algumas cabeças se calhar podem. Conheço uns quantos tipos que fazem as coisas "porque sempre se fizeram assim" e nestes casos dificilmente se pode falar de uma reflexão sobre o trabalho. O inverso, uns tipos que têm umas ideias sobre o assunto e que nuncas as testam, também é verdade. Se pode haver evolução sem as duas darem as mãos, aí fica mais complicado.

MM disse...

R. B.,

"Havia sempre um tipo que dava umas ordens ("vai por ali", "mete no ")", sim e esses tipos eram os que jogavam, por isso disse que o mais provável em muitas situações seria os próprios jogadores fazerem o 11 e escolherem posições. Mas foi apenas um exemplo para caricaturar aquelas que deveriam ser as competências dum treinador há 80 anos. Seriam muito reduzidas? Seguramente. Mas mesmo aí um entendimento (in)correto do jogo fá-lo-ia exercer (pior) melhor a sua função relativamente a outros - nalgo tão simples como escolher um 11 é preciso ter um entendimento correcto sobre futebol, jogo e jogadores.

E 100 ou 120 anos depois, existirão muitas equipas onde a boa influência dos treinadores se imagina bastante reduzida. Assim é não porque lhes falte prática. E não deverão faltar exemplos tanto em contextos de muita exigência como noutros. Enquanto C. Ronaldo mentaliza, age e decide que João Moutinho marcará o próximo penalty, Fernando Santos rende-se às suas limitações e a décadas de muita prática com um "está tudo nas mãos de Deus". Outro exemplo extremo que nos elucida sobre muita coisa.

Tendo dois ou dois mil treinadores (treinadores, pessoas como Fernando Santos, pessoas como o Maldini, gente perfeitamente capacitada para exercer a função), lado-a-lado, o que determinará a mais-valia de uns sobre outros são atributos exclusivamente intelectuais. Porque não existem outros. O que é intuitivo e cognitico só existe no cérebro. Esses atributos serão muitos e podemos como exemplo destacar um fundamental: experiência, qualidade perfeitamente adjudicada ao cérebro. A prática garante-te acumular muitos fracassos ou muitos sucessos, mas não te garante a aquisição de experiência.

MM disse...

Cognitivo', onde se lê cognitico.