quarta-feira, 6 de julho de 2016

Queimar etapas na formação, de Júnior para Sénior. Fernando Valente e Slaven Bilic

Conversava durante um jantar com o Ronaldinho e o mister Fernando Valente sobre o momento mais difícil de transição para um jogador de futebol: a passagem do futebol de formação para o futebol sénior. E ele questionava - Se os nossos jogadores aos 20 e aos 21 ainda não estão prontos para o futebol dos adultos, quando é que estarão?

A pergunta ficou no ar e reflectimos. Pensamos sobre mil e uma formas de contornar a questão, mas sempre, quase sempre, sem uma resposta suficientemente abrangente. A questão é difícil e de uma complexidade tal que só o contexto poderá dizer de cada caso como adequar determinada solução. Mas uma coisa é certa, o atraso que os nossos levam em comparação com os da mesma idade de outros países é evidente.

Que diferenças?

Slaven Bilic afirma sobre o constante aparecimento de jogadores croatas de qualidade, independentemente de ser um país com apenas quatro milhões e meio de habitantes: Um bom jogador da formação na Croácia quando tem 18 anos entra directo na primeira equipa, na primeira divisão croata. Não é a primeira liga inglesa mas é competitiva. Então, quando ele chega aos 21 já tem cerca de cem jogos na primeira divisão.

O que Bilic afirma, e que vai de encontro à maior dificuldade na transição para o futebol sénior, é que quanto mais cedo um jogador for exposto à dificuldade que é defrontar jogadores com mais dez anos de futebol do que eles mais cedo conseguirá ultrapassar essa barreira, e mais cedo conseguirá ter rendimento no futebol dos graúdos.  Assim como Fernando Valente. Olha-se para o futebol no Brasil, na Argentina, na Bélgica, em Espanha, e na Alemanha, e é normal haver miúdos expostos ao erro em muitas equipas da primeira divisão. E isso por si só é um factor determinante para que os jogadores consigam chegar mais cedo.

Zivkovic chega à Portugal, aos 19 anos, com quase cem jogos contra jogadores bem acima da sua faixa etária. E por isso está mais preparado para jogar no Benfica, para cumprir com as exigências de um grande, para entrar na selecção nacional, do que a esmagadora maioria dos jovens jogadores portugueses aos 23. E como é que jogadores que chegam de ligas bem menos competitivas do que a nossa conseguem superar com facilidade os nossos que têm mais 4 anos em cima?! E jovens destes chegarem de fora para os grandes em Portugal e afirmarem-se com grande qualidade é uma constante no nosso futebol.

O que mudar?

As equipas B, nos grandes, foram um passo fundamental para o garantir dessa competitividade aos jovens que surgem na formação. E cumprindo o objectivo (garantir a competitividade na próxima época para eles, ou para os próximos - garantir a manutenção) é fundamental que cada vez mais cedo comecem a chegar mais miúdos ao futebol sénior. Não só às equipas B's, mas ao mais alto escalão do futebol profissional do nosso país. E todos sairiam a beneficiar com isso porque cada vez mais (com a inflação que existe no futebol) os grandes clubes contratam pela idade e pelo potencial, e não pelo rendimento do momento. Tanto os grandes como os pequenos poderiam beneficiar do ponto de vista financeiro deste tipo de políticas. É olhar para o Renato aos 18.

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7 comentários:

Dejan Savićević disse...

Eu acho que o problema é sempre económico...e do colhões!!!

Vejamos, a um Tondela, um Arouca ou um Boavista compensa mais ir buscar miúdos ou graúdos de qualidade duvidosa ao Brasil ou ao Panamá...porque? porque eles vem para cá ganhar 1000 euros mês, viver debaixo da bancada e ainda assim mandam uns euros para casa...
Quando temos miúdos cheios de qualidades do Porto, Benfica, etc a ganhar já isso em juvenis...óbvio que por muita boa vontade que exista dos clubes "pequenos" o orçamento não estica...

Depois há os colhões dos treinadores... O Boavista tem neste momento um PL que subiu dos Juniores...Algo que ninguém sabe como ainda está no Bessa, uma máquina!!! Veremos se há colhões para o por a jogar.

Blessing disse...

Dejan, o Boavista e o Tondela têm muitos miúdos de qualidade duvidosa na sua formação. Ou então, não sabem o que estão a fazer na formação porque têm mais do que obrigação de os ter. eu acho que a verdadeira questão poderá estar mais relacionada com a minha segunda hipótese.

Jorge disse...

Concordo com o artigo mas nao gosto do uso casos especificos, como o do Renato, como exemplos que suportam um modelo que se quer de aplicacao geral.
O Renato e um jogador que se calhar floresce apesar do modelo de desenvolvimento corrente ainda nao ser adequado. Houve muitos jogadores que floresceram no passado apesar do modelo de desenvolvimento ser pessimo.
Outro ponto e que conviria por vezes olhar para paises como a Inglaterra que nao conseguem implementar um modelo que ajude os jogadores ingleses jovens a darem o salto para o nivel profissional de forma mais consistente. A falta de equipas B e a competitividade da EPL tera alguma coisa a ver com isso, tornando o salto das camadas jovens para a equipa principal demasiado grande. Os clubes em Portugal ainda podem melhorar esse aspecto, mas nao estamos assim tao mal.
Gosto do modelo das equipas B, e da possibilidade de rodar os jogadores em equipas da primeira divisao portuguesa ou de outros campeonatos, o que permite adequar o salto no nivel de exigencia ao jogador.
Para isso tambem e importante que os clubes tenham a possibilidade de manter uma "carteira" de jogadores jovens que vao desenvolvendo.

Dejan Savićević disse...

Blessing dou-te um exemplo concreto e não indo aos 3 grandes, há putos na equipa B do Vitoria ou do Braga mais que aptos para jogar numa 1ª liga.
Não o fazem porque? Porque monetariamente mais vale estar na equipa B...infelizmente é o que se passa. Tondelas, Paços e Aroucas pagam muito menos que qualquer equipa B a miúdos destas idades...quando pagam!! Mais vale contratar contentores de Brasileiros baratos...
O problema está na mentalidade dos dirigentes...e dos colhões!!

Blessing disse...

Jorge, "mas nao gosto do uso casos especificos, como o do Renato, como exemplos que suportam um modelo que se quer de aplicacao geral."

O Renato só foi usado para realçar o valor ao nível económico que estes miúdos têm. Ninguém no seu perfeito juízo diria que o Renato podia valer mais do que Moutinho ou que Deco quando saíram. Ou que era melhor jogador. Mas saiu por um valor bastante superior, por o clube estar a comprar potencial, e não o rendimento actual.

Dejan, "Porque monetariamente mais vale estar na equipa B..." Estás a falar para os jogadores? Isso é uma questão que se resolve fácil Não acho que a culpa esteja sequer perto de ser dos jogadores. Há casos, e casos, claro. Mas 95% das vezes os jogadores são mais do que inocentes. Tenho a certeza que a esmagadora maioria desses putos tugas das B's do Braga ou do Guimarães, preferiam estar na primeira liga no Tondela ou no Paços.

João Bernardo disse...

Dejan, acho que sei a quem te referes no caso do Boavista. O jogador em questão não é assim tão bom quanto parece, mas, de facto, já devia ter o triplo dos jogos que tem na equipa principal. Ele e o Samu, por exemplo, que foi agora fazer testes ao Barcelona. Provavelmente o clique para que o Samu comece a jogar está dado, foi-lhe reconhecido potencial no maior clube do mundo, mas não deveria ser desta forma, o clube por si só devia ter coragem em por a jogar os melhores, tenham eles 18 ou 34 anos. Eu conheço bem a realidade do Boavista, já lá passaram Juniores com qualidade, mas voltamos sempre à velha questão da "experiencia" tão apreciada no Bessa. Nada mais errado, e basta ver os reforços para que se perceba que das divisões onde foram buscar jogadores, havia lá bem melhores e alguns nas mesmas equipas, mas "raça", "atitude competitiva" e "dar a pele em campo" são os pontos de partida. Vão continuar a tirar um mau aproveitamento da formação, porque aquilo está tudo minado de incompetência de cima a baixo.

Blog de Portugal disse...

Eu sou boavisteiro, mas concordo em parte com o comentário do João Bernardo.

Penso que o avançado em causa é o Edu, que sem dúvida tem muito potencial. Se estivesse num clube de outra dimensão já lhe auguravam grande futuro, como está no Boavista para já passa despercebido. Mas se calhar até é melhor, porque pode ter mais hipóteses na 1ª liga.

Felizmente este caso conjuga qualidade com raça, por isso tenho alguma esperança nele - não conhecendo ainda o plantel inteiro do Boavista desta época, tenho a certeza que ele já era melhor que o Uchebo na última época.


Mas a mentalidade ainda pesa muito, infelizmente. Porque quem conseguir ver os jogos do Nacional de Juniores e de algumas equipas do CNS não tem dúvidas que há muita qualidade em alguns jogadores de 20 e 21 anos.

Para finalizar, deixo esta relatório que aborda muito bem o tema:
http://www.football-observatory.com/IMG/sites/mr/mr14/en/

Vejam onde anda aí o Renato Sanches...