Talvez seja por ter visto tão poucos jogos dos bracarenses
que a impressão foi tão positiva
Foi verdadeiramente impressionante o colectivo do Sporting
de Braga no Estádio da Luz. Se retirarmos os vinte minutos iniciais de
categoria do SL Benfica todo o restante jogo só deu Braga. E deu Braga mesmo
quando a bola estava nos encarnados. Deu Braga quando era preciso defender e
deu Braga de cada vez que um bracarense recuperava a bola.
Se tiver de retirar ilações por apenas um jogo, a diferença
em qualidade colectiva é abissal de uma para outra equipa. Sim, O Benfica
tacticamente controla os pormenores. Sabe posicionalmente defender com poucos.
Porém, por maior excelência que se tenha a defender com 3,4 ou 5 atrás da linha
da bola, e a equipa de Jesus tem essa excelência, é sempre insuficiente perante
adversários que individualmente sejam capazes de definir com assertividade os
lances. Relembre o golo que virou o campeonato (James Rodriguez na Luz).
E foi “individualmente” que o Benfica venceu o Braga.
Foi quase pornográfico o número de ataques potencialmente
perigosos (espaço para correr e somente três, quatro jogadores encarnados atrás
da linha da bola) que os bracarenses dispuseram ao longo da partida.
Com James em campo, o Benfica teria sido goleado. Ou se
preferir, para não o ferir, tivesse o Braga em Mossoró a capacidade para
definir com espaço e pouca oposição de Gaitán, Bruno César, Nolito, Aimar ou
Saviola, e o Benfica teria sido humilhado.
O Benfica golearia o Benfica. Relembre.
A amostra é curta, mas impressionante. O Braga sabe jogar
todos os momentos e creio que todos percebemos o porquê de ter chegado líder à
Luz. A qualidade individual de uns, mesmo não sendo absolutamente nada
desprezável é muito inferior à de outros, e talvez tenhamos mesmo que ver
Jardim com outros recursos. Com individualidades trocadas, golearia. Reafirmo.
Curioso. Jesus ao longo dos imensos jogos em Belém e em Braga,
foi sempre sendo superior aos adversários. De todas as vezes que não vencia, ia
ficando a sensação de que com outros jogadores seria imbatível. Quem diria que
mais qualidade o levariam a mudar as suas ideias (pouca presença no corredor central. Dois extremos
em simultâneo com dois avançados. E mesmo quando joga Aimar com Cardozo, o
sistema táctico permanece imutável. Apenas muda o posicionamento do argentino).
Na actualidade vai acontecendo o contrário. Ganha porque tem melhores
jogadores.
Soltas:
- Emerson a central não é pior ideia que a lateral. O brasileiro
é péssimo na abordagem defensiva às situações de 1x1 e péssimo também no trato
da bola. O seu ponto mais forte acaba por ser a forma como se relaciona com os
colegas de sector. Jogando como central os pontos fracos não estarão tão
expostos. Não significa porém que possa dar um bom central. Mas, seguramente
que tem mais potencial para jogar a central que a lateral;
- Capdevilla não dá a dinâmica que Jesus pretende (número de
vezes que faz o corredor todo), mas é um jogador e tanto. Mais cerebral e acima
de tudo sabe jogar. O espanhol sabe jogar e o Benfica deixa de ter em campo um
jogador onde cada ataque morre. Começa a parecer que se tem feito toda a época,
Jesus estaria hoje na liderança. Curiosidade, o Benfica ganhou todos os jogos
em que Cap participou;
- Em Londres, se a ideia for colocar tantos jogadores à
frente da linha da bola como na noite passada, o Benfica será trucidado;
- Saviola. Devia ter entrado Saviola, e logo ao intervalo. E
sim, por Cardozo. Bruno Alves não estragou Rodrigo, como parece ser crença
geral benfiquista. Rodrigo é o mesmo de sempre. Um jogador extraordinário nos
movimentos de ruptura e na forma como explora a profundidade, mas banalíssimo
no jogo entre linhas. O brasileiro terá uma fantástica carreira, mas como
primeiro ponta de lança. Era Saviola
quem poderia acrescentar qualidade onde o Benfica estava com dificuldades, e
Rodrigo poderia aparecer mais próximo da baliza adversária. Onde faz toda a
diferença.
- Gaitán. Verdadeiro talento à solta. Num modelo que
contemplasse mais apoios, mais jogadores atrás da linha da bola, tamanha
qualidade teria mesmo de ser aproveitada. No actual modelo demasiadas vezes tem
acções prejudiciais à equipa. Ontem não foi o caso.
- Repito. A amostra é curta. Todavia, não posso deixar
de pensar que este poderá ser o melhor Braga de sempre. Mesmo que não obtenha
as marcas do passado recente, sabe jogar todos os momentos. Colectivamente não mais é apenas uma equipa
que defende bem e com muitos, esperando o golo da vitória numa bola parada que
caia do céu. É uma equipa com processos de categoria indiscutível. Com
jogadores de grande categoria para uma equipa que nunca se sagrou campeã
nacional, mas que se percebe, salvo uma ou outra excepção, de nível ainda
inferior ao da concorrência. E quando assim é, emerge uma figura. A do treinador?! Há
que o seguir.