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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Queimar etapas na formação, de Júnior para Sénior. Fernando Valente e Slaven Bilic

Conversava durante um jantar com o Ronaldinho e o mister Fernando Valente sobre o momento mais difícil de transição para um jogador de futebol: a passagem do futebol de formação para o futebol sénior. E ele questionava - Se os nossos jogadores aos 20 e aos 21 ainda não estão prontos para o futebol dos adultos, quando é que estarão?

A pergunta ficou no ar e reflectimos. Pensamos sobre mil e uma formas de contornar a questão, mas sempre, quase sempre, sem uma resposta suficientemente abrangente. A questão é difícil e de uma complexidade tal que só o contexto poderá dizer de cada caso como adequar determinada solução. Mas uma coisa é certa, o atraso que os nossos levam em comparação com os da mesma idade de outros países é evidente.

Que diferenças?

Slaven Bilic afirma sobre o constante aparecimento de jogadores croatas de qualidade, independentemente de ser um país com apenas quatro milhões e meio de habitantes: Um bom jogador da formação na Croácia quando tem 18 anos entra directo na primeira equipa, na primeira divisão croata. Não é a primeira liga inglesa mas é competitiva. Então, quando ele chega aos 21 já tem cerca de cem jogos na primeira divisão.

O que Bilic afirma, e que vai de encontro à maior dificuldade na transição para o futebol sénior, é que quanto mais cedo um jogador for exposto à dificuldade que é defrontar jogadores com mais dez anos de futebol do que eles mais cedo conseguirá ultrapassar essa barreira, e mais cedo conseguirá ter rendimento no futebol dos graúdos.  Assim como Fernando Valente. Olha-se para o futebol no Brasil, na Argentina, na Bélgica, em Espanha, e na Alemanha, e é normal haver miúdos expostos ao erro em muitas equipas da primeira divisão. E isso por si só é um factor determinante para que os jogadores consigam chegar mais cedo.

Zivkovic chega à Portugal, aos 19 anos, com quase cem jogos contra jogadores bem acima da sua faixa etária. E por isso está mais preparado para jogar no Benfica, para cumprir com as exigências de um grande, para entrar na selecção nacional, do que a esmagadora maioria dos jovens jogadores portugueses aos 23. E como é que jogadores que chegam de ligas bem menos competitivas do que a nossa conseguem superar com facilidade os nossos que têm mais 4 anos em cima?! E jovens destes chegarem de fora para os grandes em Portugal e afirmarem-se com grande qualidade é uma constante no nosso futebol.

O que mudar?

As equipas B, nos grandes, foram um passo fundamental para o garantir dessa competitividade aos jovens que surgem na formação. E cumprindo o objectivo (garantir a competitividade na próxima época para eles, ou para os próximos - garantir a manutenção) é fundamental que cada vez mais cedo comecem a chegar mais miúdos ao futebol sénior. Não só às equipas B's, mas ao mais alto escalão do futebol profissional do nosso país. E todos sairiam a beneficiar com isso porque cada vez mais (com a inflação que existe no futebol) os grandes clubes contratam pela idade e pelo potencial, e não pelo rendimento do momento. Tanto os grandes como os pequenos poderiam beneficiar do ponto de vista financeiro deste tipo de políticas. É olhar para o Renato aos 18.

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terça-feira, 5 de julho de 2016

"Em Portugal tem-se andado a estragar talentos" ou a forMATAR.

As citações são de frases de Francisco Silveira Ramos, uma das personalidades que mais nos ensina sobre futebol e formação em Portugal, e reportam-nos para textos recentes como o da importância do atrevimento dos miúdos e outras dificuldades na formação em Portugal, tão abordadas por aqui antes.

"Há muitos jogadores que nestas idades evidenciam já algumas características que nos parece que vão ser potenciadas para jogadores de alto rendimento. Mas às vezes enganamo-nos. Ou porque as condições morfológicas dele não foram favoráveis, ou porque faltou motivação, ou porque o enquadramento não foi tão potenciador...»

"Não podemos querer ter jogadores de futebol aos 10, 11, 12, 13 anos de idade. Temos jogadores de futebol aos 20 anos. Nesta idade são só jogadores da bola. Se quisermos queimar etapas e introduzir táticas muito sofisticadas, reduzir a participação individual dos miúdos, podemos estragar este talento».

"O que caracteriza os jogadores de topo nesta idade é ter uma grande expressão individual. O que se tem passado em Portugal é termos os jogadores muito formatados. Alguém é responsável por isso. Temos jogadores muito amarrados a processos muito rígidos. Se nesta idade não são todos iguais e daqui a 5 anos forem, há algo errado neste processo»

«Andam todos à procura de jogadores inventivos, criativos, com capacidade de improvisação. Nós temos esse jogadores em Portugal, não os podemos estragar. Não podemos castrar essas competências individuais, sobretudo do domínio ofensivo, e transformá-los todos em peças de uma máquina. O futebol é um jogo coletivo, mas é feito de individualidades e temos até que fomentar essas individualidades"

"Muitas vezes deixam-se embalar e têm a tendência de ver no filho um futuro praticante de elite. Mas os miúdos nesta idade têm é que ser felizes a jogar, têm que viver as fantasias do jogo. Os pais que não estejam a criar-lhes pressão adicional porque não ajudam nada"

E por fim... a citação de um ex profissional do Sporting

"O problema mesmo...são os livros e os cursos... Há muitos "treinadores" de livros... e dos cursos... que aplicam os seus métodos a pensarem que estão no City ou na Juve... E depois não deixam evoluir os miúdos e nem o básico lhes transmitem..."

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A formação. Em Itália como em Portugal

"Os melhores treinadores devem estar na formação" afirmou José Curado.

"Por exemplo, em Itália temos um déficit de talento comparado com alguns anos atrás. Há alguns anos que fazemos sempre a mesma pergunta e em vez de darmos uma resposta estamos cada vez pior. Não é fácil. Nas camadas jovens devemos trabalhar e investir bastante nos treinadores porque podes ter espaços fantásticos de prática mas se não tens bons treinadores, qualificados e competentes, não tens como melhorar os jogadores. Em Itália isto é subestimado demasiadas vezes. A este nível contrata-se o treinador que custa menos..." Antonio Conte. Entrevista à Aspire.

Por cá o desprezo e falta de estatuto com que todos os agentes, e sobretudo os clubes encaram o treinador de jovens (e quanto mais baixo o escalão, mais tal se acentua) não demonstra somente como não se percebe o seu grau de desmedida importância. Não há topo sem base. Mas é também um factor mais, tido em conta por tantos e tantos treinadores na hora de planear. Mostrar resultados. Mostrar processos colectivos em vez de potenciar individualidades, sempre com o intuito de subir na hierarquia. Um efeito bola de neve que somente encontrará o seu caminho quando começarmos a tratar da realização pessoal e profissional dos nossos treinadores de jovens. São eles que guiam todo o nosso futebol. Mesmo que tantos não o percebam. Há que os incentivar, educar, formar e... premiar!

domingo, 28 de junho de 2015

Portugal chega ao Euro em 2015 com mais qualidade. Não. Portugal chega ao Euro em 2015 mais experiente.

Escrevia-se por aqui, no dia 9 de Outubro de 2014, experiência. Portugal esmagou a selecção Alemã com mérito, conseguindo de forma contundente a presença expectável na final do torneio. Tendo em conta o contexto, Portugal mostra-se um nível acima de todos os outros, fazendo lembrar a selecção espanhola de Thiago e Isco que também trucidou. Significa isso que o talento pode ser comparado? Não. Temos talento. Mais do que em gerações anteriores. Rui Jorge gosta de jogadores talentosos e aposta neles. Porém, não é de um nível tão alto que nos possa fazer sonhar com uma selecção A bem mais forte nos próximos anos. Onde Portugal ganhou foi nos minutos somados (ferramenta fundamental para o desenvolvimento dos jovens valores) em contextos de grande exigência por parte dos constituintes desta geração. Portugal tem William, Bernardo, e João Mário, todos no mesmo onze. Tendo em conta o contexto, pode dizer-se que beneficiamos de uma batota.

Alguém pode imaginar o nível a que Max Meier se apresentará ao atingir a idade actual de William Carvalho? Alguém percebe o porquê de Draxler ou Goetze terem ficado em casa? Portugal está forte nesta competição, de facto. Mas só o está porque não se pensa mais nas individualidades do que em outra coisa qualquer. E nestes escalões de formação o prioritário deverá sempre ser o individual.

sábado, 16 de maio de 2015

Na rua os pais não dão instruções. Por que é que o fazem no treino e no jogo?

Tarde passada num torneio de Petizes do lado da bancada a ouvir os pais. E  aos já tradicionais chuta seja lá de que forma for, e marca o teu, os pais brindaram-me com uma novidade - Então eles ainda não sabem quem tem de lançar a bola?! Com miúdos de 6 anos os pais querem que a equipa esteja tão organizada que inclusivamente os marcadores de lançamentos de linha lateral estejam definidos. E são tão veementes a gritar para dentro de campo, dando instruções constantes aos miúdos do que fazer, do como fazer, do quando fazer, que é impossível a qualquer treinador pedir que não se oiça os pais ou que não faça nada do que eles pedem. Com este tipo de dificuldades, com este tipo de pensamento, não é de admirar que dos 25 jogadores que inicialmente compunham a equipa de Infantis7 que treinei apenas 3 soubessem executar correctamente um lançamento de linha lateral. Está tudo tão formatado, os jogadores das linhas é que lançam, os mais altos é que vão para a área nos cantos, os mais rápidos é que jogam na frente... Assim se percebe perfeitamente o porquê da esmagadora maioria dos formandos apresentar grandes lacunas em alguns dos aspectos mais relevantes para o jogo. Pobreza de estímulos no treino e em jogo. Reforço daquilo em que são mais fortes mas total esquecimento daquilo em que são mais débeis.

Deixem os miúdos aprender, passar pelo maior número de situações possível na baliza e fora dela. Deixem que melhorem no que têm dificuldade e percebam que isso vai levar a que errem muitas vezes. Deixe a organização e especialização para mais tarde porque depois, no último minuto de uma meia final da Liga dos Campeões, o seu filho poderá ser o Guarda Redes que executa mal um lançamento, entregando a bola ao adversário e esgotando os segundos preciosos que se precisam para se conseguir o resultado.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Não é a genética. São as experiências e o tempo de prática. Rafinha e Thiago, os filhos de Mazinho.

Não é a genética. É o tempo de prática que faz a diferença. A qualidade da prática e as experiências.

Num post de Fevereiro revelámos os conteúdos abordados numa  formação interna que decorreu no clube sobre o Desenvolvimento do Jovem Jogador, e a importância dos tempos de prática.

Como ideias chaves para o parco desenvolvimento da actualidade foram identificados:

- Contexto actual. Miúdos que não jogam na rua, e encontram no clube o único tempo de prática.

- No clube, treinos demasiado elaborados que não respeitam o tempo de prática dos atletas, acabando sempre por não promover a relação com bola.

A solução para contrariar o paradigma avançada foi a dos Jogos Reduzidos!







Hoje apresentamos um pequeno video de dois prodígios. Melhor estímulo e maior potencial de aprendizagem do que o que ambos estão a passar no video apresentado é impossível. No descomplicar está o ganho.





Não, o segredo não está nos génes. Está nas experiências vivênciadas e no tempo de prática. Estes dois meninos aos dez anos já deviam ter tido mais tempo a bola no pé do que muitos jogadores de vinte. E é isso que faz toda a diferença.

A brincar, Thiago e Rafinha crescem mais do que milhares de jovens mal orientados nos treinos de hoje em Portugal.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O essencial no treino de jovens

"Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister?"
Maldini & Lateral Esquerdo, aquiaqui, aqui, e aqui.

Não é de hoje a nossa preocupação com o treino na formação, por sabermos olhar para o que se passa à nossa volta e perceber que algo de muito errado vai na cabeça de quem operacionaliza o treino. O futebol de rua foi-se, e ficámos agarrados a isso como desculpa para o fraco desenvolvimento dos nossos miúdos, dizendo que lhes faltam horas de prática, que já não há a magia da rua. Sem nos apercebermos que, tendo as condições mudado, dificilmente se conseguirá voltar a atingir a excelência sem alterar o método, sem uma adaptação a um novo contexto. Hoje, trago o exemplo de um exercício de treino que tinha tudo para resultar, menos o essencial.
O exercício, repare, tem tudo para funcionar. A sua simplicidade (2x1+GR) não demonstra o quão rico é, e ainda mais o seria acrescentado uma ou duas regras. Mas assim como está, já tem o fundamental para que qualquer jogador jovem possa evoluir dentro de vários parâmetros. Tem oposição, tem cooperação, tem finalização, o jogo está orientado. Porém, por trás no número 11 encontra-se uma fila de 8 jogadores. E com isso, mata-se completamente o exercício, dentro daquilo que é importante para o treino dos miúdos, e aquilo que o futebol de rua levou - Empenhamento motor em situação de jogo. Cada um destes miúdos, que estiveram 15 minutos nesta tarefa teve cinco segundos de empenhamento motor, dentro da situação que interessava evoluir, para um minuto e quarenta e dois segundos parado. Leu bem?! 5s - 102s. Ao final dos 15 minutos, cada jogador fez dez remates, e esteve dez minutos parado. Perdeu dois terços do exercício a assobiar para o ar. Do outro lado, o restante grupo fazia 1x0+GR depois de ultrapassar uma pista de obstáculos, novamente com uma fila enorme associada. Sendo que desta vez, a situação ditava cinco segundos de empenhamento motor para trinta e cinco segundos de espera. Não se pretende criticar os exercícios, ou as intenções que o levaram a ser operacionalizado, desta forma, durante 30 minutos de um treino de jovens. Pretende-se sim fazer perceber que é grave, gravíssimo, um miúdo passar mais de metade do tempo em que devia estar a treinar parado. Sobretudo quando não existe uma situação social adequada para que os miúdos tenham horas de pratica sem fim, como tiveram no passado.

Sobre estes dois exercícios, e com 3 GRs e 2 treinadores disponíveis, dois terços do campo para ocupar, eu teria dividido a equipa em dois grupos, e dentro desses grupos dividir por três equipas. Jogava-se numa situação de 3x3+3 em espaço reduzido, por exemplo, sendo que quem sofria golo passava a ser Joker. Contabilizava os golos de cada equipa e quem marcasse mais ganharia o jogo. Nesta situação, em superioridade gritante, é impossível que não  apareçam os 2x1, com possibilidade de transformar em 1x0+Gr e finalizar. O que acontecerá, também, dentro deste tipo de exercícios, é que as condições para finalizar serão quase sempre diferentes, obrigando quem finaliza a adaptar-se a cada situação, com o maior ou menor grau de exigência de cada uma. Também a quem faz o passe. Poder-se-à dizer que o exercício não garante um número de remates adequado, em termos de volume, para que os jogadores registem evolução. Mas qual é o número de remates adequado para o jogador evoluir? Pois. O que cria evolução, seja qual for o parâmetro, é a dificuldade para superar cada situação. É o encontrar de problemas diferentes, em contextos semelhantes. Aparecer a finalizar de diferentes ângulos, mais perto ou mais longe da baliza, com maior ou menor pressão, com o GR mais perto ou mais longe (da bola, da baliza) - com mais ou menos tempo -, com colegas melhor ou pior colocados, com bolas a virem de sítios diferentes e de formas diferentes, com o obrigar a ocupar diferentes espaços para finalização, etc... Isto é o futebol de rua: Adaptação à vários contextos em situação de jogo, sempre em jogo.

Alguma coisa deve estar a ser muito bem feita, em Portugal, para que num futebol treinado sem bola se consigam fazer alguns jogadores de grande qualidade!
Frase adaptada de José Boto

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A qualidade dos jogadores formados é o reflexo da qualidade dos formadores

De um artigo antigo, mas bastante recente de Breitner sobre as mudanças do futebol alemão, e uma caixa de comentário onde "o treinador português" não aceita a crítica que lhe é dirigida. Carregue no link, veja a exposição de Breitner, leia a caixa de comentários, e este último depoimento do Pedro Cardoso. Não é nada que não soubéssemos já, porque aqui não se acredita que tão profundas mudanças no perfil dos jogadores formados, na qualidade dos mesmos, não estejam directamente ligadas à qualidade de quem tem a responsabilidade de formar. 


"Aqui existe um trabalho de formação a nível nacional, ou seja, começa-se por formar os treinadores em sintonia com as diretrizes fornecidas pela Federeção Alemã de Futebol às Asscociações de Futebol dos vários estados. Começa-se por ter essa formação no âmbito estadual e a partir de certo nível passa-se para a formação a nível nacional. Aqui reside logo uma diferença estrutural em relação a Portugal, uma vez que existem muito mais níveis e o acesso a esses níveis só é concedido com mérito! O número de treinadores habilitados para Treinar nas Ligas profissionais é cerca de 2% de todos os treinadores do país. E não há cá a possibilidade de saltar níveis por experiência etc. à excepção de jogadores que jogaram pelo menos 5 anos na Bundesliga ou tiveram alguma internacionalização pela seleção Alemã. Mas ainda assim, estes, podem ir diretamente para os cursos Federativos, mas com 3 níveis de formação para ultrapassar caso, queiram treinar as ligas profssionais e de referir que esses cursos são avaliados a sério (segundo dizem) e acredito. Depois, os treinadores que trabalham nos escalões de formação são observados por treinadores/formadores das Associações ao longo da sua atividade e uma vez que têm de renovar a sua licença de 3 em 3 anos, essas avaliações feitas têm influência também na renovação de licenças.

As diretrizes da Federação que de certa forma apontam o caminho que eles consideram ser o ideal, são claras, ao nível dos escalões de formação, o treinador não tem de as seguir, mas também dificilmente terá a licença para exercer e dificilmente encontrará trabalho em clubes mais prestigiados. O facto de haver tanta formação de treinadores, provoca também um aumento da qualidade de todos os agentes desportivos. Inclusivamente de pais. O curso é tão barato e com condições tão boas (estadia, alimentação etc...) que até pais vão tirar o curso de nível mais baixo só para poderem acompanhar melhor os filhos. Agora pensem, como todos estes factores conjugados podem influenciar a qualidade do treino e consequentemente do jogador. Depois em termos de incentivos financeiros, claro que a Alemanha é economicamente muito mais forte que Portugal e daí ser possível realizar este investimento. O que permite também, e para mim, esta é a principal condição que inibibe o desenvolvimento do jogador portugues, que o treinaor viva do futebol, nos escalões de formação, sem ser num grande clube da Bundesliga e por não ter de se afirmar taticamente nos escalões de formação para poder subir na carreira e ser treinador profissional."


Sobre a brilhante mudança de pensamento dos actuais Campeões do Mundo, fica mais uma história. À porta de um Euro de sub19, Meyer e Werner (Schalke e Estugarda) que foram utilizados durante a fase de qualificação foram deixados de fora de Euro. Para quem conhece a qualidade dos jogadores referidos pode parecer estranho, porque eram claramente as estrelas da companhia. Acontece que os dois, nos respectivos clubes, tinham conquistado espaço na equipa sénior e por isso, a decisão de os levar ao Europeu tinha como consequência directa o perder da pré-temporada nos seus clubes. Para que não perdessem espaço nas escolha dos seus treinadores, e conseguissem competir de igual com o restante plantel, a decisão foi óbvia. Nunca nenhuma Federação do Mundo sonhou sequer tomar tal decisão, nem mesmo a espanhola. Mas formação é mesmo isto. Tomar todas e mais algumas medidas que vão ajudar o jogador no futuro. Formar não é ganhar agora, é ganhar no futuro. E na Alemanha pensa-se como em nenhum lado do planeta nisto. Olha-se para Portugal, e quem viu a final do Torneio da Pontinha, percebe que aqui nos encontrámos numa espécie de planeta dos macacos, tal é o atraso ao nível da mentalidade.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tempos de prática, especialização precoce e o foco nos processos colectivos em idades precoces.

Há não muito partilhei neste espaço a apresentação da formação interna que decorreu no clube.


Muita da preocupação dos treinadores de jovens da actualidade deve estar centrada nos tempos de prática dos nossos miúdos. E por tempo de prática, penso sobretudo no tempo de empenhamento motor e não na duração total da unidade de treino! O tempo em que o atleta passa efectivamente na tarefa. De nada serve inventar exercícios mirabolantes quando depois de espremido os miúdos estão mais tempo em espera, ou quando em actividade, a realizar gestos que em nada se assemelham ao jogo.

Na procura de organizações colectivas especializadissimas em idades muito precoces, onde quem brilha é o treinador, está um dos maiores erros da actualidade. Todos queremos ser o Mourinho. Porém, quem trabalha com camadas jovens tem de perceber que o foco tem de estar no potenciar da individualidade e não do colectivo. Nesse sentido, a qualidade técnica associada à tomada de decisão terá de ser sempre uma prioridade. Portanto, não importa que os miúdos sejam extraordinários na ocupação do espaço se depois não lhes damos tempo com bola para se desenvolverem. Não importa ganhar jogos de Benjamins, Infantis e Iniciados pela organização, não "espremendo" as individualidades ao máximo para que possam atingir todo o seu potencial.




Na dita formação este foi o exercício apresentado e discutido.

E estas as conclusões, segundo os critérios que mais valorizo na construção de um qualquer exercício / jogo:

- Tempo de empenhamento motor: A cada 56'' cada atleta soma 7'' de prática. Em dez minutos de exercício cada atleta terá feito cerca de dez remates. Em que sentido podemos afirmar que fazer isto é melhor que deixar o miúdo sozinho na sua rua a chutar à parede? Ai, em 10 minutos teria somado cerca de 100 remates. E é na repetição e tempo de prática que está a chave de tudo!;

- Não tem oposição! Desenquadrado do jogo. Pouco estímulo para haver adaptações;

- Objectivo apenas técnico (remate / passe / recepção);

- Não junta momentos de jogo (organização / transição);

- Tem sistema de pontuação! (Único ponto positivo)!.


Pensar e operacionalizar exercícios desta natureza, dar tareias físicas quando se poderia estar a jogar futebol, ou tareias "tácticas - teóricas" são o maior flagelo na formação de jogadores em Portugal. Os miúdos já não jogam na rua. Pouco jogam na escola, e chegam ao clube e continuam sem jogar. Em que sentido é correcto afirmar que ter treinador, quando este os submete a este tipo de organização de treino é melhor do que não ter? Sem treinador os miúdos por si próprios dividiriam-se e jogariam futebol. Aumentariam o tempo de prática e logo ai já seria tempo despendido de forma mais interessante. 

Duma realidade diferente da nossa (Alemanha) chega um estudo interessante 




"National Team differed from amateurs in more non-organised leisure football in childhood, more engagement in other sports in adolescence, later specialisation, and in more organised football only at age 22+ years. Relative to numerous other studies, these players performed less organised practice, particularly less physical conditioning, but greater proportions of playing activities. The findings are discussed relative to the significance of playing forms and variable involvements and are reflected against the deliberate practice and Developmental Model of Sport Participation (DMSP) frameworks."

Quando vir o seu filho de nove, dez, onze, doze ou treze anos entregue a uma equipa técnica toda metódica com exercícios todos demasiado elaborados, desconfie. É dos que ocupam o treino a jogar (2x2, 3x3, 4x4, 5x5 etc etc) que eles gostam mais. Tão mais que chega a ser preferível ficar na rua com os amigos que ir para um treino tão elaborado, mas que "espremido dá 10 ou 15 minutos de prática".

PS - Obrigado ao João Marinho pela partilha do estudo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Domingo no Futsal

Sem jogo no Domingo, fui assistir a uma eliminatória da Taça da AF Lisboa de Futsal sem qualquer tipo de expectativa. Não sendo um grande seguidor e conhecedor da modalidade não deixei desde o início de pensar que aquilo, o Futsal, com aquelas dimensões, num relvado qualquer, deveria ser o início de toda a formação no futebol. GR+4x4+GR. Parece um exercício de treino, e assim também deveria ser a competição nos primeiros escalões por tudo de bom o que isso traria a quem o estivesse a praticar.

Com aquelas dimensões o volume de pratica de cada um dos jogadores seria enorme, mesmo em competição - estariam sempre em jogo, no centro de jogo a atacar e a defender. Acção-Reacção.

Com o aumento do número de vezes que se toca na bola está-se a valorizar a relação com ela - o gesto técnico sai reforçado pela repetição.

O espaço para atacar é curto, independentemente do adversário pressionar em cima ou esperar atrás. E isso potencia o aumento da velocidade de execução e de decisão - Com isso obriga-se os jogadores a ver antes, por não terem muito tempo para decidir e executar.

Com o tamanho das balizas, a finalização deve ser precisa. Deve haver intencionalidade de colocar a bola "ali" sob pena de bater sempre no GR. O que potencia a procura de fixar o GR e tira-lo do lance, colocando o outro colega em condições mais favoráveis para finalizar - Busca de situações mais simples de finalização.

Para se ter qualidade no ataque organizado é obrigatório abrir o campo, por forma a conseguir o máximo de tempo e espaço para atacar, e colocar o adversário em maiores dificuldades quando pressiona - O conceito de campo grande vai depender de todos porque todos estão em jogo. E como tal, obrigará a uma maior capacidade de concentração por parte de quem joga, por ser directamente responsável pelo sucesso de cada lance.

Gostei de ver a valorização do gesto técnico por ninguém tentar fazer coisas a toa, e a intencionalidade das equipas que procuravam a organização, abrir as linhas de passe, e depois sair para o ataque. Também procuravam a transição, mas só quando a superioridade era clara. Em igualdade, esperavam. Gostei da paciência com que procuravam encontrar espaços, a mobilidade, o ficar com a bola até surgir o desequilíbrio. Gostei muito da forma super correcta com que resolviam as superioridades - fixam e soltam com facilidade, abrem as linhas de passe certas, tiram o adversário do lance com o passe. Só um dos lances de superioridade não terminou num 1x0+GR. Quase todos os jogadores presentes com capacidade de engano, de ludibriar o adversário para criar espaço para eles (1x1) ou para a entrada de colegas (2x1).

Gostei das equipas compactas a defender, a fechar as linhas de passe próximas da contenção e a defender a profundidade um pouco mais longe por não existir fora de jogo. Gostei de ver a competência com que defendiam no 1x1 em contenção, com a proximidade certa do portador da bola para não deixar entrar o remate ou o passe. Só vi uma vez um jogador com os apoios mal orientados, sem proteger o centro do terreno, ou a baliza - posição de base defensiva. Gostei da agressividade com que defendem, pelo campo ser tão curto todo o espaço dado ao adversário é perigoso, logo deve sempre sair alguém na bola, com o cuidado de não ser batido porque aí o adversário aproveita logo a superioridade. Gostei do limite de faltas, porque valoriza o espectáculo, e obriga a tentar defender bem.

No final alguém ganha e alguém perde. É assim no desporto, não podem ganhar todos. Mas são todos esses os valores que gostaria de ver implementados na formação. Não me canso de pensar que os meninos deviam estar a treinar para jogar Futsal num piso adequado ao futebol.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O que seria de Mourinho e Guardiola?

Todos sonhamos ser Mourinho e Guardiola. Todos sonhamos jogar e vencer a Liga dos Campeões. Todos sonhamos conseguir grandes feitos, no futebol, e ver reconhecida capacidade dentro do desporto que amamos. Mas quem seria Mourinho, e Guardiola, sem jogadores com capacidade para executar aquilo que eles pedem? O que seria de Mourinho, e Guardiola, sem jogadores?

Parece-me lógico que, os jogadores que estou a formar agora - entre os 10 e os 19, no meu caso - poderão ser meus jogadores no futuro, quando forem seniores. E sendo que essa possibilidade não é tão irreal, nem está tão longe quanto isso, o que será de mim quando a avaliação das minhas competências estiver na qualidade dos pés e da cabeça dos jogadores que formei? O que será de mim, se na fase onde poderia ter ajudado os jogadores a serem mais competentes, pensei no que não era importante naquela altura e apenas em ajudar-me a mim mesmo? Se na altura em que eles mais aprendem eu nada lhes ensinei, como é que vou ser reconhecido quando no final são eles que jogam, que pensam, que defendem, que passam, que marcam? Por esse caminho nunca conseguirei ser Mourinho ou Guardiola. Não o conseguirei porque na fase fundamental da minha afirmação como treinador de futebol os jogadores vão dar-me o que lhes dei em tempos, na fase fundamental da afirmação deles como jogadores: muito pouco, ou nada. Não vou ter jogadores capazes de executar as minhas ideias para o jogo, e rapidamente irei cair para fora do mundo que tanto me apaixona, por não ter formado jogadores para me servirem no futuro.

O meu futuro está nas minhas mãos. Ou melhor, na minha cabeça. Se tiver cabeça para perceber que é importante dar aos jogadores primeiro para receber depois. Larguem os quadros tácticos e as frases feitas, parem de tomar decisões pelos jogadores, ensinem-os a jogar futebol como o futebol é. Ensinem-lhes o jogo, e respeitem a individualidade para que no futuro elas respeitem o colectivo. Parem de se queixar da falta que faz o Futebol de Rua se no treino não fazem o melhor para que o volume na relação com a bola seja maximizado. Criem o contexto e deixem o jogador escolher o seu caminho, descobrir o seu sucesso. Incentivem a criatividade, o pensamento livre, e respeitem as crianças mais rebeldes porque os meninos não são todos iguais. Formem jogadores atrevidos com fome de conhecimento e sede de evolução. Larguem o futebol sem bola com os jovens e potenciem as qualidades que vos vão ajudar mais no futuro. Mais do que saber reduzir os espaços importa saber como os criar. É urgente que cada vez mais surjam monstros técnicos com capacidade de criação em espaços reduzidos. E no futuro, na Final da Liga dos Campeões, quando o jogo estiver empatado e o adversário fechado em quarenta metros, aparece aquele menino rebelde e atrevido - com a auto-estima que diferencia os grandes - a serpentear entre o adversário, e a descobrir a solução que o treinador não encontrou para furar o bloco defensivo. A descobrir o passe que o treinador não viu, e a encontrar o espaço que antes não existia. A avaliar como competente o treinador que nada teve a ver com aquele lance em particular. Ou melhor até teve, mas não naquele dia...

sábado, 6 de dezembro de 2014

Pirlo - "Transferências" de Crianças

Na introdução do livro, Cesare Prandelli fala dos tempos em que conheceu o Sr Pirlo, ainda nas camadas jovens do Brescia, enquanto era treinador do Atalanta.

Tentando traduzir o que lá vem, é algo como:

"Chegamos a tentar arranjar uma reunião para discutir a possibilidade de o trazer, mas o nosso presidente Percassi, um "iluminado" (sem sentido prejurativo, eu é que não encontrei palavra melhor para traduzir), percebeu que iamos causar um incidente diplomático. Nunca esquecerei as suas palavras - Pirlo fica onde está, Pessoas como ele devem ser deixadas em paz. Ele precisa de continuar a fazer o que gosta e a jogar com alegria. Não quero que ele sinta qualquer tipo de pressão. Ele deve continuar um jogador que pertence a todos"

Naquela altura já todos tinham percebido o raro talento que andava por ali, 2 ou 3 anos mais novo do que os outros, mas ... já com todagente a ir ver os jogos para o ver a ele, só a ele.

Numa semana em que aqui no blog se falou de formação, onde se apontou o dedo a uma serie de situações, é importante pensar sobre isto - Transferências de crianças.

Legalmente, qualquer criança pode passar de um clube para o outro, sem problema nenhum. Temos visto (em Lisboa pelo menos, mas acredito que seja um fenómeno que se verifica em todo o lado), crianças que quando chegam a idade de infantis de 1º ano já estiveram em 2 ou 3 clubes diferentes.

Se por um lado, faz todo o sentido que se procure as melhores condições possiveis para que as crianças aprendam e se desenvolvam, estão os pais (que no fundo são quem manda) preparados para fazer essas escolhas?

  • Qualidade de treino - O que é isto e como é que se avalia? 
  • Competitividade dentro da equipa - O miudo é dos melhores, é mais um, é dos mais fracos?
  • Competitividade da equipa em relação as outras onde está inserida - Vão ganhar tudo porque os adversários são muito fracos, ou vão ter de discutir as coisas sempre até ao fim?
Estas são coisas que devem pesar na cabeça de quem escolhe para onde leva os miudos.

Problemas identificados por quem vive este fenómeno sem ser com olhos de pai de futuro Cristiano Ronaldo:

  • Clubes a contratarem treinadores não porque lhes reconhecem muita competência para o ensino do jogo, mas porque "trazem" não sei quantos jogadores com eles. De repente o clube XYZ era fortissimo porque tinha uma "fornada" excelente, e de repente foram todos para o XPTO e o clube onde estavam... puff
  • 4 ou 5 clubes com os jogadores "todos", e os restantes com muitas dificuldades para trabalhar
  • Uma desigualdade gigante entre clubes que jogam uns com os outros, com resultados super desiquilibrados.
Urgente criar condições para garantir que os miudos conseguem crescer como o Pirlo. Tranquilos para poderem jogar com alegria e sem grandes pressões. Com exigência, mas sem terem uma mochila de pressão maior do que a que podem carregar.