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terça-feira, 5 de julho de 2016

"Em Portugal tem-se andado a estragar talentos" ou a forMATAR.

As citações são de frases de Francisco Silveira Ramos, uma das personalidades que mais nos ensina sobre futebol e formação em Portugal, e reportam-nos para textos recentes como o da importância do atrevimento dos miúdos e outras dificuldades na formação em Portugal, tão abordadas por aqui antes.

"Há muitos jogadores que nestas idades evidenciam já algumas características que nos parece que vão ser potenciadas para jogadores de alto rendimento. Mas às vezes enganamo-nos. Ou porque as condições morfológicas dele não foram favoráveis, ou porque faltou motivação, ou porque o enquadramento não foi tão potenciador...»

"Não podemos querer ter jogadores de futebol aos 10, 11, 12, 13 anos de idade. Temos jogadores de futebol aos 20 anos. Nesta idade são só jogadores da bola. Se quisermos queimar etapas e introduzir táticas muito sofisticadas, reduzir a participação individual dos miúdos, podemos estragar este talento».

"O que caracteriza os jogadores de topo nesta idade é ter uma grande expressão individual. O que se tem passado em Portugal é termos os jogadores muito formatados. Alguém é responsável por isso. Temos jogadores muito amarrados a processos muito rígidos. Se nesta idade não são todos iguais e daqui a 5 anos forem, há algo errado neste processo»

«Andam todos à procura de jogadores inventivos, criativos, com capacidade de improvisação. Nós temos esse jogadores em Portugal, não os podemos estragar. Não podemos castrar essas competências individuais, sobretudo do domínio ofensivo, e transformá-los todos em peças de uma máquina. O futebol é um jogo coletivo, mas é feito de individualidades e temos até que fomentar essas individualidades"

"Muitas vezes deixam-se embalar e têm a tendência de ver no filho um futuro praticante de elite. Mas os miúdos nesta idade têm é que ser felizes a jogar, têm que viver as fantasias do jogo. Os pais que não estejam a criar-lhes pressão adicional porque não ajudam nada"

E por fim... a citação de um ex profissional do Sporting

"O problema mesmo...são os livros e os cursos... Há muitos "treinadores" de livros... e dos cursos... que aplicam os seus métodos a pensarem que estão no City ou na Juve... E depois não deixam evoluir os miúdos e nem o básico lhes transmitem..."

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Treinar Infantis

Encontrado por aí. Não importa onde. Declarações de um treinador de futebol de uma equipa de Infantis.

"Foi um jogo sem muita história, simplesmente estivemos uns angustiantes 60 minutos dentro de campo. Normalmente peço aos meus jogadores que tentem, que errem vezes sem conta se for caso disso, responsabilidade sempre minha. A única coisa que tentaram e conseguiram, foi estender um tapete vermelho ao valioso adversário e tentar que o tempo fosse passando, nesse caso a rotação da terra fez-lhes a vontade. Responsabilidade máxima da minha parte pois não consegui passar a mensagem e penitencio-me por isso. Já no sábado teremos outro jogo, jogo esse que se não formos com a ambição de nos divertirmos, de sermos competitivos, de tentarmos com enorme dedicação sermos felizes…ficaremos pela ferraria, perdemos por 3-0 e a multa é de responsabilidade minha"

Tudo o que é errado no futebol jovem espelhado em apenas um parágrafo.

Recuperando um texto antigo:

"O fenómeno Mourinho trouxe milhentos pontos positivos. Porém, há sempre algo de negativo que aparece por arrasto. Hoje todos queremos ser treinadores, e o estilo de Mourinho pode trazer ideias erradas. As estrelas, o foco, os importantes, não são os treinadores. São os jogadores. Estamos numa era onde todos querem ser Mourinho ou Guardiola. Todos pretendem brilhar por cima dos jovens jogadores. Formatam-se as crianças desde bem cedo (9-10-11-12 anos) para ideias de jogo que coarctam a sua individualidade. O seu talento, as suas ideias, a sua criatividade, tudo é trocado por um ego maior. Os treinadores pretendem desde bem cedo criar bases mecânicas nos seus jogos. Tomar as decisões pelos seus jovens atletas, não os deixando expressar as suas qualidades."

quinta-feira, 31 de março de 2016

A parte que não se separa do todo. O crescimento do jogador.

"Modern coaches take things apart and put them back together again. But that's anti-natural. Without our context we are not what we are. We are not a list of atributes. My aim is no to fracture and break apart what should be together, not to de-contextualise." Juanma Lillo.

É comum o pensamento "Se X tivesse mais força. Se Y fosse mais rápido... seria melhor ainda". Ignorando-se que tal não existe. Se X tivesse mais força não seria X. E se Y fosse mais rápido não seria Y. O crescimento enquanto jogador não se dissocia do crescimento enquanto individuo. O contexto, as experiências vivenciadas fruto de se ser quem e como se é constroem o produto (não) final.

Se Messi tivesse um pouco mais de força seria melhor jogador. Se pudessemos separar atributos e voltar a colocar tudo junto, tal afirmação seria correcta. Porque Messi não teria perdido nada por ter mais força. Contudo, tal é impossível.

Se Messi tivesse mais força não seria Messi tal como o conhecemos. A sua característica diferente, tê-lo ia feito crescer de uma forma diferente. Teria experimentado outras opções, outras decisões. Teria tido sucesso de outra forma, ou insucesso. E continuaria a crescer em virtude do resultado de vivências diferentes das que teve. Em suma, se Messi tivesse mais força, não seria Messi. Se Garrincha não tivesse as pernas tortas, não seria Garrincha. Não teria o drible desconcertante. Mas teve tal drible porque tinha as pernas tortas? Não. Tinha o drible desconcertante porque se adaptou de determinada maneira em função de uma anomalia anatómica.

Há que ter sempre demasiados cuidados com o "onde tocamos", não vá, citando Guardiola "...não mexi para não estragar". Não podemos dissociar nada do produto final. Seja físico, social ou mental. 

Quaresma não teria tido o sucesso que teve e tem se fosse um menino bem comportado. Não se pode dissociar a forma desinibida como joga e a personalidade própria de quem nasceu para jogar este jogo da sua rebeldia. Se lhe matassem a personalidade, Quaresma não seria Quaresma. Com os defeitos que tem, mas sobretudo com as virtudes.

Não queiram meter pessoas em laboratórios para desenvolver jogadores porque simplesmente não é assim que lá se chegará. Deixem expressar a individualidade e façam-os crescer com os mais velhos quando assim tem de ser. É com os cuidados extra que têm de adotar para "não levar nas orelhas" e não serem excluídos de grupos mais competitivos que se formam os melhores.

"Oh, ele joga no bairro com o irmão (uns anos mais velho) e os seus amigos... não custa nada jogar aqui com os betinhos da sua idade" Respondeu-me há um par de anos um miúdo quando o questionei sobre se outro, que estava lá dentro a rasgar um jogo todo, tinha por hábito tal performance.  

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Querer tudo depressa. Burn Out. E a forma descontraída como tantas vezes se chega lá.

Em Portugal compete-se cada vez mais cedo. Hoje em Benjamins (nove e dez anos) e até sobre o escalão de Traquinas (sete e oito) há pressão para se competir.

Os pais querem tudo demasiado cedo. Querem predizer aos nove e aos dez anos que o seu menino vai jogar profissionalmente. Os treinadores querem mostrar competências colectivas. Organização em equipas de crianças. Futebol amarrado e cheio de combinações treinadas. No ano seguinte chegarão a escalões de outra faixa etária, pensam.

Aos cinco anos e após o primeiro treino os pais interrogam o treinador. "O que achou dele?".

Hoje é muito fácil vender o futebol e o desenvolvimento da performance aos pais de miúdos bastante novos. Há uma ideia de que quanto mais cedo e mais futebol treinar de forma organizada, mais chances terá de lá chegar. Conheci quem pagasse para treinos individualizados de melhoria de aspectos físicos e coordenativos a uma criança. Mas que não a deixava jogar fora dos treinos, para não se cansar ou magoar.

Um estudo num país de referência revelou que a grande percentagem dos jogadores que chegavam a internacionais tinham uma bagagem motora bastante mais completa que o "apenas" treinar futebol de forma organizada.

Os miúdos precisam sobretudo de muita estimulação motora. Muito trepar, empurrar e puxar. Muita liberdade e muito contacto com a bola. Organização a chegar muito depois. 

Aqui, o testemunho de um dos apaixonantes extremos portugueses.

"Nunca tive escola, como se diz. Comecei a jogar futebol apenas com 16 anos... Antes jogava na rua e jogava futebol salão. Era isso que me divertia e que gostava de fazer.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Ser Cristiano Ronaldo. E relembrar a formação de hoje.

"Aguento melhor a pressão e sou o profissional que sou pela vida difícil que tive..."


"Sair de casa com 11 anos, ir para um mundo diferente, primeiro em Lisboa, depois em Inglaterra, foi difícil"


"Dos 11 aos 18 anos ganhei estabilidade. A pessoa que sou deve-se aos momentos que passei sem a minha família, momentos difíceis em que tinha que fazer tudo sozinho como um homem, ao ponto de passar a minha roupa a ferro. Nunca pensei passar a minha roupa a ferro aos 11 anos" Cristiano

Há não muito na RR uma entrevista a Aurélio Pereira, onde ele recordava um episódio na vida de Cristiano. Ronaldo passava meses a fio sem ver a família. Quando o Sporting nos nacionais defrontava Nacional ou Marítimo na Madeira, era uma alegria para o miúdo e para a sua família. Mesmo que por breves instantes saudades seriam ultrapassadas. Num das semanas que antecedeu a visita do Sporting à Madeira, depois de meses sem ver a própria família, Cristiano portou-se mal na escola. O castigo? Não foi à Madeira! Você que anda no futebol, consegue imaginar o que faria hoje um papá ou mamã de um menino com um castigo deste nível? 

Ronaldo, de uma maneira muito peculiar é apenas um exemplo que fundamenta o texto de há alguns dias atrás. "Histórias antigas e a formação de hoje".

Hoje apetece citar grande parte do post de Dezembro

"De que serve demasiadas vezes toda a qualidade no processo treino (quando a há) se não conseguimos moldar o carácter dos miúdos? Hoje, sem a rua onde sobreviviam os mais perseverantes, estamos tantas vezes condenados a promover o desenvolvimento de quem nunca chegará lá.

Cada vez mais no futebol só aparecem "betinhos". Não no sentido do extrato social ou da forma de vestir, mas na protecção absurda de que usufruem dos papás e mamãs, que lhes retira toda e qualquer possibilidade de se desenvolverem enquanto pessoa para jogar este jogo. "Ai que o menino levou uma canelada". "Ai que o menino foi suplente" "Ai que o menino seguiu para a equipa B" "Ai que o menino não gosta disto ou daquilo" "Ai que o menino não pode estar frustrado e tudo tem de lhe ser dado porque é uma criança".

O que estaremos a crescer no processo de treino e na forma como preparamos a evolução dos miúdos estará a ter correspondência na forma como lhes moldamos o carácter? Não, de todo.

Hoje parece que se formam apenas futebolistas enquanto praticantes de um jogo. Enquanto atleta, ignorado que todo o atleta é uma pessoa. Ignorando que não haverá futebolista se não tiver a personalidade necessária para o ser. 

Excepções sempre houve e haverá. Mas a convicção que o caminho certo estará sempre entre deixá-los desconfortáveis, mas ao mesmo tempo promover o tempo de empenhamento motor ao máximo e a proximidade com o jogo no treino.

Enquanto pais e mães estiverem nos treinos e nos jogos, a formação de futebolistas nunca estará a ser potenciada ao máximo."

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Histórias antigas e a formação de hoje

Ontem tive oportunidade de almoçar com um grupo de amigos com vivências extraordinárias no futebol. A partilha foi mais do que muita. Interessante e divertida.

Recordar episódios de treinadores passados que depois de derrotas pesadas obrigavam-nos, ainda miúdos, a percorrer km e kms a pé atrás da carrinha do clube em marcha lenta. Corridas intermináveis na mata, saltos, flexões e abdominais sem fim. As bolas no centro do campo, e um treino todo de físico e superação e no final do mesmo "agora vão tocar na bola e siga para o banho". Os gritos no balneário, os "maricas" e a pedadogia completamente assassinada. Não saía um único conhecimento táctico para além do "Tu és o avançado, tu és o médio direito e tu o defesa central".

E ainda assim, a quase certeza que o correcto estará algures entre o antes e o hoje. E que o depois o traga.

De que serve demasiadas vezes toda a qualidade no processo treino (quando a há) se não conseguimos moldar o carácter dos miúdos? Hoje, sem a rua onde sobreviviam os mais perseverantes, estamos tantas vezes condenados a promover o desenvolvimento de quem nunca chegará lá.

Cada vez mais no futebol só aparecem "betinhos". Não no sentido do extrato social ou da forma de vestir, mas na protecção absurda de que usufruem dos papás e mamãs, que lhes retira toda e qualquer possibilidade de se desenvolverem enquanto pessoa para jogar este jogo. "Ai que o menino levou uma canelada". "Ai que o menino foi suplente" "Ai que o menino seguiu para a equipa B" "Ai que o menino não gosta disto ou daquilo" "Ai que o menino não pode estar frustrado e tudo tem de lhe ser dado porque é uma criança".

O que estaremos a crescer no processo de treino e na forma como preparamos a evolução dos miúdos estará a ter correspondência na forma como lhes moldamos o carácter? Não, de todo.

Hoje parece que se formam apenas futebolistas enquanto praticantes de um jogo. Enquanto atleta, ignorado que todo o atleta é uma pessoa. Ignorando que não haverá futebolista se não tiver a personalidade necessária para o ser. 

Excepções sempre houveram e haverão. Mas a convicção que o caminho certo estará sempre entre deixá-los desconfortáveis, mas ao mesmo tempo promover o tempo de empenhamento motor ao máximo e a proximidade com o jogo no treino.

Enquanto pais e mães estiverem nos treinos e nos jogos, a formação de futebolistas nunca estará a ser potenciada ao máximo.

sábado, 16 de maio de 2015

Na rua os pais não dão instruções. Por que é que o fazem no treino e no jogo?

Tarde passada num torneio de Petizes do lado da bancada a ouvir os pais. E  aos já tradicionais chuta seja lá de que forma for, e marca o teu, os pais brindaram-me com uma novidade - Então eles ainda não sabem quem tem de lançar a bola?! Com miúdos de 6 anos os pais querem que a equipa esteja tão organizada que inclusivamente os marcadores de lançamentos de linha lateral estejam definidos. E são tão veementes a gritar para dentro de campo, dando instruções constantes aos miúdos do que fazer, do como fazer, do quando fazer, que é impossível a qualquer treinador pedir que não se oiça os pais ou que não faça nada do que eles pedem. Com este tipo de dificuldades, com este tipo de pensamento, não é de admirar que dos 25 jogadores que inicialmente compunham a equipa de Infantis7 que treinei apenas 3 soubessem executar correctamente um lançamento de linha lateral. Está tudo tão formatado, os jogadores das linhas é que lançam, os mais altos é que vão para a área nos cantos, os mais rápidos é que jogam na frente... Assim se percebe perfeitamente o porquê da esmagadora maioria dos formandos apresentar grandes lacunas em alguns dos aspectos mais relevantes para o jogo. Pobreza de estímulos no treino e em jogo. Reforço daquilo em que são mais fortes mas total esquecimento daquilo em que são mais débeis.

Deixem os miúdos aprender, passar pelo maior número de situações possível na baliza e fora dela. Deixem que melhorem no que têm dificuldade e percebam que isso vai levar a que errem muitas vezes. Deixe a organização e especialização para mais tarde porque depois, no último minuto de uma meia final da Liga dos Campeões, o seu filho poderá ser o Guarda Redes que executa mal um lançamento, entregando a bola ao adversário e esgotando os segundos preciosos que se precisam para se conseguir o resultado.

sábado, 9 de maio de 2015

Horst Wein - " estimular o cérebro, o nosso musculo mais importante"

Aqui Horst Wein, um dos grandes do futebol jovem deu a uns meses uma entrevista com alguns pontos interessantes, nada novos por estes lados..

"DOZE  – Conhece o futebol de formação do Sporting, bastante prestigiado através do desenvolvimento de jogadores como Figo, Cristiano Ronaldo ou Nani?
HORST WEIN –  O Sporting e os grandes clubes ainda cometem erros, porque muitas vezes a criança joga como se fosse um adulto, em partidas de onze contra onze, quando devia jogar futebol de sete ou futebol de cinco, por exemplo. O futebol é como os sapatos. Ou seja, não se pode calçar uma criança como se fosse um adulto. Devemos deixá-la correr, ter o gosto pelo jogo e estimular o cérebro, o nosso músculo mais importante, para que possa tomar decisões."

"DOZE  – O que pensa do futebol de formação ao nível das selecções jovens de Portugal, com alguns títulos conquistados?

HORST WEIN – Portugal devia estar já a pensar no Mundial Qatar, em 2022, e isso não está a acontecer. A preocupação principal é o Campeonato do Mundo no Brasil, em 2014. Refiro-me a 2022, porque o desenvolvimento de um jovem futebolista demora aproximadamente dez anos.

"DOZE  – Tem ideias consideradas revolucionárias relativas às regras do futebol de formação. Quais são as principais?
HORST WEIN – O futebol de formação deveria passar a ter quatro balizas, duas para cada equipa, nas extremidades da linha de fundo, com dois guarda-redes e nove jogadores à frente, o que tornaria o jogo muito mais interessante. O sistema de pontuação deveria ser diferente: o que acontece quando o Benfica estiver a ganhar ao Sporting por 2-0 a dez minutos do fim? Começaria a defender, o jogo torna-se aborrecido e os adeptos não gostam. 0-0 não deveria valer qualquer ponto, enquanto o 1-1 ou o 2-2 poderia ser premiado com um ponto. A vitória seria contemplada com dois pontos, mas se a equipa marcar três golos, conquistaria três pontos. Voltando ao exemplo anterior, o Benfica, com este sistema, iria atacar, para somar três, em vez de dois pontos, tal como o Sporting, pois saberia que se marcasse um golo, estaria perto de empatar. O jogo ficaria mais espectacular, sem se gastar muito dinheiro."

As duas balizas com GR, é um crescer do 3v3 que Horst Wein defende para o ensino do jogo. Tem alguns aspectos interessantes no 3v3, 4v4 e até 7v7, principalmente para a variação do centro de jogo em largura, focando o ensino do jogo principalmente no ataque.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Não é a genética. São as experiências e o tempo de prática. Rafinha e Thiago, os filhos de Mazinho.

Não é a genética. É o tempo de prática que faz a diferença. A qualidade da prática e as experiências.

Num post de Fevereiro revelámos os conteúdos abordados numa  formação interna que decorreu no clube sobre o Desenvolvimento do Jovem Jogador, e a importância dos tempos de prática.

Como ideias chaves para o parco desenvolvimento da actualidade foram identificados:

- Contexto actual. Miúdos que não jogam na rua, e encontram no clube o único tempo de prática.

- No clube, treinos demasiado elaborados que não respeitam o tempo de prática dos atletas, acabando sempre por não promover a relação com bola.

A solução para contrariar o paradigma avançada foi a dos Jogos Reduzidos!







Hoje apresentamos um pequeno video de dois prodígios. Melhor estímulo e maior potencial de aprendizagem do que o que ambos estão a passar no video apresentado é impossível. No descomplicar está o ganho.





Não, o segredo não está nos génes. Está nas experiências vivênciadas e no tempo de prática. Estes dois meninos aos dez anos já deviam ter tido mais tempo a bola no pé do que muitos jogadores de vinte. E é isso que faz toda a diferença.

A brincar, Thiago e Rafinha crescem mais do que milhares de jovens mal orientados nos treinos de hoje em Portugal.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O essencial no treino de jovens

"Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister?"
Maldini & Lateral Esquerdo, aquiaqui, aqui, e aqui.

Não é de hoje a nossa preocupação com o treino na formação, por sabermos olhar para o que se passa à nossa volta e perceber que algo de muito errado vai na cabeça de quem operacionaliza o treino. O futebol de rua foi-se, e ficámos agarrados a isso como desculpa para o fraco desenvolvimento dos nossos miúdos, dizendo que lhes faltam horas de prática, que já não há a magia da rua. Sem nos apercebermos que, tendo as condições mudado, dificilmente se conseguirá voltar a atingir a excelência sem alterar o método, sem uma adaptação a um novo contexto. Hoje, trago o exemplo de um exercício de treino que tinha tudo para resultar, menos o essencial.
O exercício, repare, tem tudo para funcionar. A sua simplicidade (2x1+GR) não demonstra o quão rico é, e ainda mais o seria acrescentado uma ou duas regras. Mas assim como está, já tem o fundamental para que qualquer jogador jovem possa evoluir dentro de vários parâmetros. Tem oposição, tem cooperação, tem finalização, o jogo está orientado. Porém, por trás no número 11 encontra-se uma fila de 8 jogadores. E com isso, mata-se completamente o exercício, dentro daquilo que é importante para o treino dos miúdos, e aquilo que o futebol de rua levou - Empenhamento motor em situação de jogo. Cada um destes miúdos, que estiveram 15 minutos nesta tarefa teve cinco segundos de empenhamento motor, dentro da situação que interessava evoluir, para um minuto e quarenta e dois segundos parado. Leu bem?! 5s - 102s. Ao final dos 15 minutos, cada jogador fez dez remates, e esteve dez minutos parado. Perdeu dois terços do exercício a assobiar para o ar. Do outro lado, o restante grupo fazia 1x0+GR depois de ultrapassar uma pista de obstáculos, novamente com uma fila enorme associada. Sendo que desta vez, a situação ditava cinco segundos de empenhamento motor para trinta e cinco segundos de espera. Não se pretende criticar os exercícios, ou as intenções que o levaram a ser operacionalizado, desta forma, durante 30 minutos de um treino de jovens. Pretende-se sim fazer perceber que é grave, gravíssimo, um miúdo passar mais de metade do tempo em que devia estar a treinar parado. Sobretudo quando não existe uma situação social adequada para que os miúdos tenham horas de pratica sem fim, como tiveram no passado.

Sobre estes dois exercícios, e com 3 GRs e 2 treinadores disponíveis, dois terços do campo para ocupar, eu teria dividido a equipa em dois grupos, e dentro desses grupos dividir por três equipas. Jogava-se numa situação de 3x3+3 em espaço reduzido, por exemplo, sendo que quem sofria golo passava a ser Joker. Contabilizava os golos de cada equipa e quem marcasse mais ganharia o jogo. Nesta situação, em superioridade gritante, é impossível que não  apareçam os 2x1, com possibilidade de transformar em 1x0+Gr e finalizar. O que acontecerá, também, dentro deste tipo de exercícios, é que as condições para finalizar serão quase sempre diferentes, obrigando quem finaliza a adaptar-se a cada situação, com o maior ou menor grau de exigência de cada uma. Também a quem faz o passe. Poder-se-à dizer que o exercício não garante um número de remates adequado, em termos de volume, para que os jogadores registem evolução. Mas qual é o número de remates adequado para o jogador evoluir? Pois. O que cria evolução, seja qual for o parâmetro, é a dificuldade para superar cada situação. É o encontrar de problemas diferentes, em contextos semelhantes. Aparecer a finalizar de diferentes ângulos, mais perto ou mais longe da baliza, com maior ou menor pressão, com o GR mais perto ou mais longe (da bola, da baliza) - com mais ou menos tempo -, com colegas melhor ou pior colocados, com bolas a virem de sítios diferentes e de formas diferentes, com o obrigar a ocupar diferentes espaços para finalização, etc... Isto é o futebol de rua: Adaptação à vários contextos em situação de jogo, sempre em jogo.

Alguma coisa deve estar a ser muito bem feita, em Portugal, para que num futebol treinado sem bola se consigam fazer alguns jogadores de grande qualidade!
Frase adaptada de José Boto

domingo, 29 de março de 2015

Então, porque terminámos com o jogo na rua e avançámos com as academias?

Uma obrigatoriedade dos tempos modernos, pois claro. 

O contexto actual que não permite que tantas crianças passem horas a fio na rua com a bola nos pés, como faziamos na nossa infância, é uma clara limitação ao aparecimento do talento. Os horários e vidas complicadas dos pais que não chegam sequer a saber que os seus filhos têm qualidades que deviam chegar aos clubes. E se o sabem, como levar os miúdos ao clube, quando os horários de trabalho são cada vez maiores? O aspecto financeiro. Onde jogar sem pagar?! 

Perdeu-se o futebol de rua.

E jogar na rua nada tem a ver com freestyle. Não tem a ver com organização, mas com tudo o que tem faltado nos programas orientados. É a bola a bater no chão irregular desenhando diferentes ângulos, obrigando a uma adaptação técnica, a um ganho de agilidade. É o estimular da criatividade usando os obstáculos. É o saltar por cima de um muro e deslizar por baixo dum carro para recuperar a bola que se perdia. A velocidade a que tudo decorre quando enfrentas miúdos com mais três anos, e a forma como tens de te adaptar se pretendes continuar a ser escolhido. É a persistência que adquires enquanto na baliza esperas pela tua oportunidade. Nada é oferecido! É o levantar permanente da cabeça porque não há equipamentos ou coletes, e tu tens de ver tudo. É o driblar quatro amigos porque não conseguiste vislumbrar um colega. É o tempo totalmente gasto a jogar. É o saber onde a bola não pode entrar, porque naquele quintal o vizinho vai furá-la! A variedade de situações... de jogo!

Deixem as crianças ser crianças. Deixem os miúdos driblarem, os defesas ter a bola no pé, não apressem o guarda redes nas reposições de bola e forcem apenas no sentido de os fazer perceber o jogo e não a posição.

"Joguei à bola todos os dias da minha vida desde os três anos" Messi.

Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister? As academias têm uma função tão ou mais comercial que formativa.

"Eu quero é que joguem na desorganização" Francisco Silveira Ramos.

Quantos perceberão verdadeiramente o alcance das palavras de uma das grandes referências do futebol em Portugal? 

"Se treinam na posição X e depois jogam na Y ficam confusos" atirou-me um treinador que lida com meninos da pré-competição! A maluquice da organização está a castrar todo o desenvolvimento dos jovens futebolistas. "Eu quero mesmo é que aprendam na confusão. Que descubram caminhos. Que os inventem!"

Na rua formavam-se jogadores e homens competitivos. Minimizar as perdas do tempo de empenhamento motor e as perdas de carácter / personalidade pelas facilidades com que tudo é obtido na actualidade é o maior desafio que os treinadores enfrentam nos dias de hoje. E todos sabemos como tantas vezes os pais e dirigentes, pelo desconhecimento, são mais um entrave ao que é o correcto. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Tomadas de decisão na zona de finalização. Exemplifica um miúdo de 11 anos.

Miúdo(s) de onze anos a exemplificar o que tantos adultos não conseguem sequer perceber.

2x1+GR. Deve-se sempre fixar e soltar?

Não! Deve-se progredir fixando, mas a decisão seguinte depende da linguagem corporal do adversário, naturalmente. Se este tapa a linha de passe, ou se se preocupa mais com o adversário sem bola, há que progredir até ao fim.

Ora veja:


E ainda 2x0+GR (entretanto chegou a ajuda).

O mesmo miúdo de onze anos exemplifica o que é aproximar a equipa do golo.
O Guarda redes fixado continua centrado no portador. Que opção deve ser tomada?

Ora veja:



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Formação em Portugal


Na manhã de sábado, falava eu ao telefone com o Maldini sobre um dos grandes problemas da formação do momento. Problema esse que se verifica cada vez mais devido à crescente procura dos "clubes grandes" por parte dos pais. A esses clubes os pais reconhecem vitórias, sobretudo. Ora veja, existem neste momento dois grandes polos no futebol praticado por crianças: 

- O das equipas grandes. Cada uma com 4, 5 equipas por escalão a multiplicar pelas escolas de formação com outros nomes mas com a patente do clube mãe. Nessa realidade, os pais optam pelo nome do clube por saberem que lhes garante vitórias, com o sonho de um dia os filhos chegarem aos escalões principais desses clubes (Juvenis, Juniores), e por fim assinarem pela equipa profissional. Por isso, os clubes grandes secam todos os clubes à sua volta, garantindo por escalão a volta de 60 jogadores de grande qualidade (para o escalão em questão, nesta fase específica da sua formação), mais outros tantos por cada escola patenteada com o nome de um grande.

- O das outras equipas. Sem jogadores de qualidade que sobrem, ficam literalmente com os que ninguém quer. Têm de fazer verdadeiros milagres para formar equipas, e pegar até em quem não tem tanto gosto pelo jogo para conseguir preencher todos os escalões. No máximo conseguem juntar dois jogadores de qualidade (para o escalão em questão, no momento em questão). Mesmo os que estão no espaço geográfico do clube (residência, escola) preferem ir para os grandes.

Disso resulta o desnível verificado nas provas oficiais das respectivas associações de futebol do país. Basta olhar-se para a classificação de cada campeonato, e perceber-se que os grandes têm uma média "impossível" de golos marcados, resultante das diferenças que existem entre os jogadores dessas escolas, e o dos jogadores que os outros não conseguem ter. As diferenças de resultado nos jogos são de dez golos para cima.

Agora coloque-se você na posição dos pais. Ganhar todos os jogos por goleada, ou perder a grande maioria por goleada? A escolha parece-me lógica. O Maldini relata-me que ele (que tem um menino a jogar num clube grande) não acha graça nenhuma aos jogos que vai ver. Nem os pais. Que ele até tem preguiça de levar o miúdo todos os dias de manhã aos jogos, por já saber o resultado. Os pais dos miúdos da equipa dele já nem festejam os golos... Mas a minha preocupação não é com o Maldini, nem é com os pais. É o desenvolvimento das crianças que me importa. O que aprendem as crianças quando ganham um jogo por 10-0? Que competências é que eles desenvolvem num jogo tão desnivelado quanto esse? Semana sim, semana sim, o mesmo resultado... E os que perdem pelos mesmos números todas as semanas?

Agora coloco-me eu no papel do treinador de uma das equipas grandes, nos escaloes principais da formação. E aí, de 25 jogadores vou buscar 15 a outros clubes, que não estiveram a competir com os melhores. Que não ganhavam sempre por dez a zero. Alguns deles até perdiam sempre nas primeiras fases de formação. O que correu mal com as centenas de jogadores que até então eram os melhores (pelo menos em potencial) para o futuro?! Falta de competitividade. Esforçar-se para conseguir o resultado faz parte do progresso individual do jogador. Chegar ao limite e ultrapassa-lo, chegar a um novo limite e lutar por o ultrapassar novamente. Não é tudo, e não terá sido o único problema. Mas é certamente um dos mais graves.

As associações de futebol podiam tomar algumas medidas no sentido de zelar pelos interesses dos jovens jogadores. Dos futuros craques que ali começam. Mas para o fazer, devem perceber que para os jovens evoluírem tem de haver competição. Eles devem ir para o jogo competir. Devem ter dificuldade para conseguir o resultado, porque sem dificuldade não há evolução. Poder-se-ia avaliar um conjunto de normas (como campeonatos de elite, ou redução do número de equipas/jogadores inscritas/os por cada clube), que vão contra os interesses financeiros dos clubes e das associações. Mas há regras que podem ajudar a mudar o jogo sem tocar em tais interesses, se quem pensa e trata do futebol  de formação estiver aberto à mudança. Na Noruega existe uma regra no futebol das primeiras etapas de formação, que dita que quando a diferença no marcador é superior a 3 golos (3-0, 4-1, 5-2, etc...) a equipa que ganha passa a jogar com menos um jogador em campo, até se verificar (ou não) novo nivelamento do resultado (diferença de apenas dois golos). Com uma regra simples garantem algumas coisas:

- Maior competitividade nos jogos;
- E não havendo, garantem mais condições para uma equipa inferior chegar ao golo e também para não sofrer;
- Garantem um estímulo competitivo mais adequado aos jogadores menos evoluídos;
- Garantem um estímulo competitivo mais adequado aos jogadores mais evoluídos;
- Garantem a descentralização dos miúdos, porque mesmo no clube da zona conseguem "competir" contra os grandes (e os pais olham muito para isso);
- E com a descentralização garantem um contexto mais rico e de maior competitividade para todos os jogadores, e com isso uma maior evolução dos mesmos (que é afinal o objectivo de todos);

Simplesmente genial, não acham?

 No futebol de sete onde existe maior probabilidade de se chegar a resultado avultados, pelas dimensões do terreno, seria interessante uma regra deste género, ou não?

PS: Não confunda o catalogar de jogadores (grande qualidade/os que ninguém quer) com um preconceito para os miúdos. Com o dizer de: este chega para isto, aquele nunca vai chegar. Existem, de facto, diferenças técnicas e físicas marcantes que fazem desequilibrar os jogos nestes escalões, sobretudo quando uma equipa tem 15 jogadores de grande nível técnico e físico para a idade. Por aqui, entende-se que essas diferenças se reduzem com o tempo. Por aqui sabe-se que em muitos, muitos, muitos casos os jogadores que estão na frente naquele momento são ultrapassados por alguns que não davam um pontapé na bola até então. Mas causa-nos transtorno e depressão ver tanto talento em fases precoces ir pelo cano, por nada...

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sub-21. Experiência.

Alguém sabe qual é a diferença fundamental entre as competências das selecções anteriores e desta?
O número de experiências (minutos de jogo e treino) que a maior parte deles acumula até ao momento.

José Sá - Soma muitos minutos como titular na primeira divisão portuguesa.
Raphael Guerreiro - Primeira divisão francesa. Titular em muitos jogos.
Rubén Vezo - Muitos minutos no Valência.
Paulo Oliveira - Muitos minutos no Guimarães, a dar os primeiros passos no Sporting. Em breve, poderá jogar na prova mais exigente do mundo (Champions).
Esgaio - Poucos minutos na primeira divisão, é certo. Mas desde que subiu à primeira equipa e fez alguns jogos provou ser jogador de plantel. Hoje, treina e joga com os melhores (como já devia ter sido desde o ano passado).
Rúben Neves - Poucos minutos na primeira divisão. Mas muita experiência de qualidade em pouco tempo. Já jogou a Champions e um clássico como titular. Treina habitualmente com os melhores. E só isso faz dele melhor.
Bernardo Silva - Habitual suplente no Mónaco. Ainda assim, sempre utilizado. Tanto no campeonato, como na Champions. Treina com os melhores.
Sérgio Oliveira - Titular habitual do Paços de Ferreira. Soma já mais de um ano de experiência na primeira divisão nacional.
Rafa - Muitos minutos no Braga. Convocado para o mundial por Paulo Bento.
Cavaleiro - Minutos no Benfica, no campeonato e na Liga Europa. Joga agora na primeira divisão espanhola. Tendo sido várias vezes titular.
Ricardo Pereira - Alguns minutos no Porto, no campeonato e na Liga Europa. Treina com os melhores.

De realçar ainda dos suplentes, Ricardo Horta e Carlos Mané ao nível das boas experiências.

Não há muitas coincidências, nestes casos. E a maturidade que Portugal demonstrou não é obra do acaso. É fruto das boas experiências que grande parte dos titulares tem. Claro que tal não seria possível sem jogadores com talento.

É também nisto que temos de imitar mais a formação espanhola e alemã. Cada vez mais jogadores jovens (os melhores de cada geração) em contextos competitivos de grande exigência.

domingo, 28 de setembro de 2014

Da formação. Do ganhar e do perder. E Draxler, a estrela em ascensão.


Já em 2008, Stan Van Gundy, reputadíssimo treinador da equipa dos Orlando Magic da NBA, manifestava a sua preocupação pelo caminho que a formação de jovens talentos basquetebolistas estava a tomar nos Estados Unidos da América. Como nunca na América importam-se basquetebolistas europeus. 

Para Van Gundy a explicação é bastante simples. Falhas graves na formação dos atletas. Em traços gerais, afirmou Gundy que os treinadores não ensinavam o jogo aos miúdos. Os mais altos e com maior potencial físico quando atingiam a maioridade nem sabiam driblar porque enquanto crianças tudo o que lhes era solicitado era que ganhassem ressaltos e de imediato passassem a bola aos mais habilidosos. 

Em suma, para vencer, os treinadores coarctavam as possibilidades de desenvolvimento dos atletas. 

E esta é uma problemática transversal a imensos desportos. Nomeadamente o futebol, sobretudo em Portugal. Há não muito a Federação Francesa considerou a criação de cotas no acesso aos clubes por forma a proteger os talentos que cada vez menos são formados em detrimento do físico e mecânico. 

Observamos a selecção nacional e percebemos que o tempo da criatividade e do talento já lá vai. Tudo hoje é muito e apenas físico, sendo fácil perceber a queda drástica de qualidade que vivemos desde as selecções que nos representaram em 2000 e em 2004. 

É uma problemática que deve ser tida em conta por todos os treinadores da formação. Que merece uma reflexão aprofundada, porque o futuro do futebol em Portugal é deles que depende. Bastante mais do que de qualquer outro treinador conceituado de futebol profissional. 

´Os melhores treinadores devem estar na formação´ afirmou em tempos o excelente José Curado. 

E assim o é, de facto. Não basta perceber do jogo. Há que mais do que nunca ter qualidade na operacionalização do treino (não esquecer a importância que o jogo deve assumir nestes momentos, por forma a potenciar ao máximo o tempo de empenhamento motor, ao contrário das tradicionais filas de espera), e no identificar e trabalhar de forma acérrima os jovens que denotem maior potencial. 

Quantos são os treinadores que optam pelo pouco apto e sem potencial atleta apenas porque lhe garante golos de livre do meio campo? Quantos jovens cheios de talento ficam para trás porque não viram as suas capacidades potenciadas por estarem tapados por outros que já se sabe nunca terão hipóteses de sobreviver quando a selecção estreitar, mas que no momento por terem uns bons quilos a mais resolvem de bola parada? 

Chega sempre o momento em que quem se evidencia apenas pelo físico não tem mais nada para dar e acaba fora da competição. E quantos ficaram para trás ou não atingiram a plenitude das suas capacidades porque o seu caminho foi sempre tapado por menos capazes que se evidenciavam por chutar mais alto e mais forte? É que de ano para ano os guarda redes crescem e as diferenças físicas que tanta desigualdade promovem nas crianças esbatem-se. Quando tal acontece é tempo dos talentosos se afirmarem. Mas quantos destes não se desenvolveram por incompetência dos seus treinadores? 

E vencer não tem de surgir em oposição ao formar. Tudo o que os treinadores precisam é de um bom plano para gerir condignamente (seja em treino, seja na competição) a formação de uns e outros. Quando se trabalha na formação, sobretudo com crianças há que perceber que o individual é importante. As estrelas, o foco é sobre as crianças e não sobre os modelos de jogo mecânicos e coarctadores que idealizam. 

Há pouco, um caro amigo, responsável pela prospecção de um grande nacional partilhou uma história deveras interessante, que a todos devia fazer pensar.

Em conversa com o treinador dos s19 e coordenador do Schalke, ficou a saber que Draxler chegou aos juniores aos 15 anos, porque já era um talento. Mas, não sabia defender e não queria. fugia dos duelos, mas continuava a marcar e a desequilibrar em todos os jogos. O treinador insistia com ele para a necessidade de saber defender, porque ali não fazia diferença, mas nos séniores, teria que o fazer. Como é natural ele não o ouvia. Um dia Draxler foi colocado como trinco. "...até ao final da época, este é o teu lugar" Muita azia do Draxler, mas forçado lá jogou a trinco. Nos primeiros jogos, perderam quase sempre por culpa dele. Os colegas começaram a cair em cima do miúdo que teve que melhorar e muito. Tanto que no final da época parecia que toda a vida tinha jogado naquela posição. Hoje, é um dos melhores alas do mundo! Valeram bem aquelas derrotas... certo?

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Treinar os jogadores para conhecerem o jogo. Não apenas para a posição onde mais vezes aparecem em campo.

"Tenho de estar atento à forma como jogam os colegas, mesmo os laterais e centrais, pois nunca se sabe o que vai suceder no jogo" 
Dizia Gaitan numa entrevista ao Record

«Exacto. O jogo é caótico. E independentemente do espaço, e posição, que ocupamos mais vezes no decorrer do jogo, as estruturas modernas organizam-se por forma a que todos os jogadores, num determinado contexto, pisem terrenos "desconhecidos". Exige-se, dessa forma, que todos os jogadores conheçam o funcionamento global da estrutura. Isso, para que se possam integrar em todos os momentos, sem comprometer a estabilidade e relação harmoniosa da organização.»
Escrevia-se por aqui, sobre o trabalho de Jorge Jesus.



Em tempos, um leitor questionava, de forma pertinente, sobre o caminho a seguir ao nível da operacionalização dos princípios de jogo no início da temporada. «Acho que a discussão é: nesta altura é melhor privilegiar sectorial e intersectorial em que cada jogador cumpre o seu papel de modo mais ou menos fixo, ou obrigar todo o plantel a saber executar todas as posições do seu sector.»

Eu estou com o Bergkamp neste ponto: «Por outro lado, se queremos ensinar a sério, se queremos que o todo seja realmente mais do que a soma das partes.... temos é de ensinar o jogo, e não a posição. O jogador tem de perceber o que faz, e o porque é que o faz, não deve jogar de cor.»

O caminho, para mim, deve ser o de ensinar o jogo como ele é hoje. Se de forma circunstancial todos os jogadores passam por todas as posições em campo, então todos os jogadores no início da época (primeiro jogo oficial) devem saber comportar-se (de forma simples) de acordo com a zona do campo onde se encontram, e de acordo com os colegas que os acompanham (sector). No fundo, devem comportar-se de acordo com aquilo que o jogo pede. E isso é conhecimento do jogo.

No lance, Coutinho não percebeu que era defesa esquerdo. E se o percebeu, não sabe como é que um defesa esquerdo se deve comportar nesta situação (aparentemente simples).

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Formação. "At the early ages the best player is the one who dribles everybody".

Passei uma tarde de Domingo diferente. Numa experiência que me foi proporcionada pelo Maldini, tive a oportunidade de ver dois jogos, de quatro equipas de formação, sendo que duas delas são de grande reputação.

Aquilo vem sendo defendido por aqui, ao nível do treino de crianças, é verdadeiramente uma necessidade emergente. Isto porque, no passado, éramos todos brindados com a obsessão pelo físico. O desenvolvimento dessas qualidades era o essencial no treino. Hoje, voltámos a errar relativamente ao treino de jovens. A prioridade deixou de ser física, para que, desde cedo, se tente desenvolver qualidades "tácticas" que se enquadrem num modelo de jogo. Deixou-se de inundar os miúdos com barreiras, para que sejam afogados com quadros tácticos.

Nas idades daquelas crianças (10 anos), o pensamento táctico é absolutamente castrador do desenvolvimento de qualidades individuais, que lhes vão ser úteis no futuro. Sem falar dos esquemas mentais demasiados complexos, a que os treinadores sujeitam as crianças. Sendo que nem todos apresentam o mesmo grau de desenvolvimento, o foco deverá ser o adquirir de qualidades técnicas, sobretudo. E isso pode, e deve, ser conseguido com jogo/s.
O objectivo, nesta fase de desenvolvimento, é que os miúdos se transformem em monstros técnicos. Capazes de executar, com perfeição, todos os skills do jogo. Relação perfeita com a bola. Sendo que são eles que devem descobrir o jogo, através de tentativa-erro. Sucesso, insucesso. O treinador guia, e cria o contexto: 1x1, 2x1, 2x2, 3x2, 3x3, etc. O jogador descobre a solução, repete, aperfeiçoa.


Amarrar os miúdos a esquemas rígidos, e a padronização de comportamentos, é o que mais castra a criatividade dos jovens jogadores. Ele deve ter liberdade para agir, e descobrir por si a solução mais eficaz em cada contexto. E depois de errar, ele irá perceber que não foi o melhor caminho. Errando sistematicamente, poderá dar-se o caso do treinador ser mais interventivo. Mas não no sentido de castrar o jogador da sua autonomia. Mas sim na criação do contexto de exercitação certo para que a dificuldade apareça, e o jogador encontre o caminho do sucesso por repetição sistemática.

Feedbacks do tipo, baixa o bloco, o Mdef só joga a um toque, cruzamentos é sempre ao segundo poste, depois da bola entrar no lateral para onde segue?, varia o flanco, são, à meu ver, errados para seniores, quanto mais para os que estão a aprender e descobrir o jogo. Para mim, o foco do treinador, ao nível do feedback, deverá estar sempre ligado à necessidade de ajudar o jogador a descortinar a situação em que está envolvido. Não em dar-lhe a solução, mas em ajuda-lo a entender o contexto. De modos, a que eu usaria estratégias simples, no treino e no jogo como: 1x1, João. 3x2. 1x2, tens polícia, tas só , etc.

On-Topic Daniel Alves, fantástico!

quarta-feira, 12 de março de 2014

Futebol de rua em Munique

Muito se reconhece hoje a importância que o futebol de rua teve na formação de tantos talentos. Afinal o que oferta o futebol de rua aos jovens praticantes que estes não encontram, tantas vezes na prática orientada? Ao contrário do que por vezes se supõe não são as dificuldades por pisos menos próprios que fazem crescer os talentos. A chave de tudo está no jogo. As crianças / jovens quando se juntam jogam. E é isso que tantas vezes não encontram nos treinos.

Na prática organizada pelos seus treinadores. A chave de todo o processo de treino é o jogo. E por jogo não entenda os formais 7x7 ou 11x11. Tudo é jogo quando tem oposição, duas balizas e os atletas sempre na tarefa e não à espera em filas. Que melhor forma de treinar situações de 2x1 que colocando os atletas a jogar 2x2 com a obrigatoriedade da equipa que não tem a posse da bola ter guarda redes? Em 10 minutos de jogo, os jogadores somam 10 minutos de tempo de empenhamento motor. Para o mesmo objectivo, com filas, por vezes em 10 minutos somam 2 ou 3 de prática. Ao menor tempo na tarefa, junte o ´ligar/desligar´ constante que nunca enfrentam na competição onde têm de estar sempre concentrados. Com criatividade nas regras / condicionantes nos exercícios, todos os objectivos podem perfeitamente ser treináveis em jogo ajudando os atletas a cumprir com mais qualidade os critérios de êxito. 

E é sobretudo pelo constante jogar que hoje é tão reconhecido o futebol de rua. Se a este jogar sempre em actividade, sempre ligados que a rua proporciona aos mais jovens, lhe juntarmos a total ausência de coarctação da sua individualidade (´...é preciso deixarmos que os miúdos sejam individualistas aos 10,11 anos, para termos jogadores de futebol aos 20´ Francisco Silveira Ramos), sabemos que por vezes estão melhor entregues a si mesmos que a treinadores que desde bem cedo pretendem um jogar totalmente mecânico, sem rasgos de criatividade que complementem o modelo de jogo que preconizam nas suas mentes. Há que ensinar e não decorar a jogar. A evolução dos jovens dá-se sobretudo com as experiências que vivenciam. Pouca relevância terá a parte teórica ou verbal que treinadores e pais sempre procuram incutir. É preciso errar e deixar errar para haver evolução. 

Refere Daniel Coyle no ´Talent code´ que as aprendizagens se efectuam dez vezes mais rápidas quando há um erro para corrigir. Para errar há que jogar (2x2, 3x3, 4x4, 3x3+Joker, 4x4+Joker, o que for, mas jogar). Jogar na competição, mas essencialmente no treino porque é ai que os atletas mais horas passam. Menos filas, menos decisões tomadas pelo treinador, mais jogo, maior valorização do talento e do potencial. Maior trabalho sobre os que poderão mais tarde dar mais e não os deixar cair porque não seguem todos os comportamentos mecânicos e pré estabelecidos do modelo de jogo definido. É a única forma de no futuro podermos voltar a ter os talentos em qualidade e quantidade de outrora.



P.S. - Não há qualquer juízo de valor em relação ao video. Nem para o bem nem para o mal. Mas, se há dois marcadores com iguais capacidades, parece uma bela forma de decidir quem marca...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

"Queremos aprender mais com Guardiola"

Neuer, só alguns querem aprender mais. Lê a tua entrevista ao Kroos, e diz-lhe que Guardiola quer que ele melhore como jogador.

Guardiola diz que Lahm é o jogador mais inteligente que treinou. Dá para perceber o porquê? 
É difícil quebrar com o que se aprendeu anteriormente. Sobretudo se esse aprendizado foi sustentado por doses elevadas de sucesso individual, e colectivo. Contudo, há aqueles jogadores que "conhecem o jogo" e conseguem adaptar-se a "qualquer" modelo de jogo, e a qualquer posição, sem baixar o rendimento. Esses jogadores são aqueles que não se limitam a decorar o que lhes é ensinado. São os que não aprendem sem questionar. São os que verdadeiramente aprendem, o que para a maioria parece não ter sentido. 

Se no início da época eu dissesse que Lahm seria melhor médio do que Kroos, provavelmente seria trucidado nesta mesma caixa de comentários. Hoje, percebe-se que a inteligência é mais importante que tudo o resto. Mais importante, até, que as rotinas da posição que o jogador ocupa habitualmente. Em pouco tempo de jogo, e de treino, no meio campo, Lahm torna-se melhor que um número elevadíssimo de profissionais, do alto rendimento, que jogaram sempre na mesma posição.

Não é particularmente alto, não é particularmente forte, e não tem a qualidade técnica de muitos. E qual é a importância disso, se ele tem o essencial?!

As setas vermelhas representam o/s passe/s que o Kroos faz, na maior parte do tempo.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Formação de jovens jogadores

Horst Wein, formador de treinadores e consultor de clubes com o Barcelona, Arsenal e Inter de Milão e de várias federações, na senda do que vai sendo há muito defendido por este espaço.


«Deixem as crianças jogar», sublinhou o formador alemão, lembrando que só se aprende a jogar futebol, jogando e não a fazer exercícios. «Para as crianças jogar é como dormir, é necessário para a saúde física e mental», acrescentou, defendendo a importância de «reconquistar a rua para melhorar o nível do futebol em Portugal e não só». 



Horst defende que para despertar e estimular o potencial inato dos jovens futebolistas é necessário apostar em treinos com jogos simplificados, com três ou quatro jogadores no máximo, que se devem intervalar com exercícios corretivos. «Com mais jogadores as crianças jogam menos e marcam menos», apontou o formador, sublinhando que na rua os jovens não jogam para ganhar mas para marcar, o que ajuda a desenvolver o seu potencial. «Muitas vezes no final nem sabem quanto ficou o resultado, só querem é ter a bola e marcar golos».