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terça-feira, 5 de julho de 2016

"Em Portugal tem-se andado a estragar talentos" ou a forMATAR.

As citações são de frases de Francisco Silveira Ramos, uma das personalidades que mais nos ensina sobre futebol e formação em Portugal, e reportam-nos para textos recentes como o da importância do atrevimento dos miúdos e outras dificuldades na formação em Portugal, tão abordadas por aqui antes.

"Há muitos jogadores que nestas idades evidenciam já algumas características que nos parece que vão ser potenciadas para jogadores de alto rendimento. Mas às vezes enganamo-nos. Ou porque as condições morfológicas dele não foram favoráveis, ou porque faltou motivação, ou porque o enquadramento não foi tão potenciador...»

"Não podemos querer ter jogadores de futebol aos 10, 11, 12, 13 anos de idade. Temos jogadores de futebol aos 20 anos. Nesta idade são só jogadores da bola. Se quisermos queimar etapas e introduzir táticas muito sofisticadas, reduzir a participação individual dos miúdos, podemos estragar este talento».

"O que caracteriza os jogadores de topo nesta idade é ter uma grande expressão individual. O que se tem passado em Portugal é termos os jogadores muito formatados. Alguém é responsável por isso. Temos jogadores muito amarrados a processos muito rígidos. Se nesta idade não são todos iguais e daqui a 5 anos forem, há algo errado neste processo»

«Andam todos à procura de jogadores inventivos, criativos, com capacidade de improvisação. Nós temos esse jogadores em Portugal, não os podemos estragar. Não podemos castrar essas competências individuais, sobretudo do domínio ofensivo, e transformá-los todos em peças de uma máquina. O futebol é um jogo coletivo, mas é feito de individualidades e temos até que fomentar essas individualidades"

"Muitas vezes deixam-se embalar e têm a tendência de ver no filho um futuro praticante de elite. Mas os miúdos nesta idade têm é que ser felizes a jogar, têm que viver as fantasias do jogo. Os pais que não estejam a criar-lhes pressão adicional porque não ajudam nada"

E por fim... a citação de um ex profissional do Sporting

"O problema mesmo...são os livros e os cursos... Há muitos "treinadores" de livros... e dos cursos... que aplicam os seus métodos a pensarem que estão no City ou na Juve... E depois não deixam evoluir os miúdos e nem o básico lhes transmitem..."

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Criatividade e o futebol de rua

Estava ontem, a conversa com alguém que já despertou vários posts aqui no LE, sobre o incrível post do Football Hunting,  que mostra que a quantidade de toques que se da, tem de fazer sentido com o que o jogo esta a mostrar naquele momento. Falávamos que neste post, pelo menos da maneira como o vimos, se mostrava claramente que por vezes o jogo pede que se dê vários toques na bola, para atrair a pressão e depois a soltar para alguém livre, que só esta livre porque os adversários foram atraídos pelo "excesso de toques" na bola. A coisa depois variou para a criatividade, e o futebol de rua. Esse amigo tinha estado a conversa com um treinador de sub19, que se queixava que os miúdos hoje em dia não tinham criatividade, relacionando essa falta de criatividade com a ausência de futebol de rua. E tudo bem, já ouvimos esta cassete do futebol de rua várias vezes. O ponto que chamou a atenção foi "pedimos aos jogadores para ganharem todos os 1v1". Assumo que sejam os 1v1 ofensivos e defensivos. O problema aqui, é que (pelo menos no nosso entender) vencer todos os 1v1 do jogo não tem nada a ver com criatividade. Criatividade (para nós), é o identificar de várias soluções e escolher a melhor. A melhor não tem de ser sempre a mesma, e não tem de ser espetacular visualmente. Pode ser fintar 2 ou 3 jogadores, mas muitas vezes a melhor é a que encontramos no video abaixo.
O futebol de rua potencia (ou potenciava) muitas coisas. As mais óbvias eram as superioridades/inferioridades numéricas, a irregularidade do terreno, e a macaquice. Leia-se macaquice como utilizar a parede ou o carro para fazer uma tabela, por exemplo. 
Quando o que se faz no treino e o que se pede em campo, tem a ver com limitação de toques, ou com padronização de saídas de bola e de movimentos atacantes, fica muito normal que a criatividade dos jogadores pareça insuficiente. Mas parece insuficiente porque é limitada pelo modelo (de treino e de jogo), não porque os jogadores são por si... pouco criativos. Se o Busquets treinar e tiver ordens para jogar a um máximo de 2 toques, e para receber de um lado e procurar imediatamente o outro, seja no lateral curto, ou no extremo longo vai parecer alguém muito pouco criativo. O Messi não é criativo porque consegue fazer isto.
Ou vá, tem muito de criatividade, na forma como ultrapassa os adversários todos. Mas coisas destas, vemos muitos jogadores a fazer. Agora... o video que se segue?
Isto é ter varias soluções, ter uma ideia de qual seria melhor e pior... e escolher aquela que mais ninguém seria capaz de ver. E isto meus amigos, é impossível de padronizar, ou de se fazer com limites de toques.

quinta-feira, 31 de março de 2016

A parte que não se separa do todo. O crescimento do jogador.

"Modern coaches take things apart and put them back together again. But that's anti-natural. Without our context we are not what we are. We are not a list of atributes. My aim is no to fracture and break apart what should be together, not to de-contextualise." Juanma Lillo.

É comum o pensamento "Se X tivesse mais força. Se Y fosse mais rápido... seria melhor ainda". Ignorando-se que tal não existe. Se X tivesse mais força não seria X. E se Y fosse mais rápido não seria Y. O crescimento enquanto jogador não se dissocia do crescimento enquanto individuo. O contexto, as experiências vivenciadas fruto de se ser quem e como se é constroem o produto (não) final.

Se Messi tivesse um pouco mais de força seria melhor jogador. Se pudessemos separar atributos e voltar a colocar tudo junto, tal afirmação seria correcta. Porque Messi não teria perdido nada por ter mais força. Contudo, tal é impossível.

Se Messi tivesse mais força não seria Messi tal como o conhecemos. A sua característica diferente, tê-lo ia feito crescer de uma forma diferente. Teria experimentado outras opções, outras decisões. Teria tido sucesso de outra forma, ou insucesso. E continuaria a crescer em virtude do resultado de vivências diferentes das que teve. Em suma, se Messi tivesse mais força, não seria Messi. Se Garrincha não tivesse as pernas tortas, não seria Garrincha. Não teria o drible desconcertante. Mas teve tal drible porque tinha as pernas tortas? Não. Tinha o drible desconcertante porque se adaptou de determinada maneira em função de uma anomalia anatómica.

Há que ter sempre demasiados cuidados com o "onde tocamos", não vá, citando Guardiola "...não mexi para não estragar". Não podemos dissociar nada do produto final. Seja físico, social ou mental. 

Quaresma não teria tido o sucesso que teve e tem se fosse um menino bem comportado. Não se pode dissociar a forma desinibida como joga e a personalidade própria de quem nasceu para jogar este jogo da sua rebeldia. Se lhe matassem a personalidade, Quaresma não seria Quaresma. Com os defeitos que tem, mas sobretudo com as virtudes.

Não queiram meter pessoas em laboratórios para desenvolver jogadores porque simplesmente não é assim que lá se chegará. Deixem expressar a individualidade e façam-os crescer com os mais velhos quando assim tem de ser. É com os cuidados extra que têm de adotar para "não levar nas orelhas" e não serem excluídos de grupos mais competitivos que se formam os melhores.

"Oh, ele joga no bairro com o irmão (uns anos mais velho) e os seus amigos... não custa nada jogar aqui com os betinhos da sua idade" Respondeu-me há um par de anos um miúdo quando o questionei sobre se outro, que estava lá dentro a rasgar um jogo todo, tinha por hábito tal performance.  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Então porque terminámos com o jogo na rua e avançámos com as Academias? Take II

Uma obrigatoriedade dos tempos modernos, pois claro. 

O contexto actual que não permite que tantas crianças passem horas a fio na rua com a bola nos pés, como faziamos na nossa infância, é uma clara limitação ao aparecimento do talento. Os horários e vidas complicadas dos pais que não chegam sequer a saber que os seus filhos têm qualidades que deviam chegar aos clubes. E se o sabem, como levar os miúdos ao clube, quando os horários de trabalho são cada vez maiores? O aspecto financeiro. Onde jogar sem pagar?! 

Perdeu-se o futebol de rua.

E jogar na rua nada tem a ver com freestyle. Não tem a ver com organização, mas com tudo o que tem faltado nos programas orientados. É a bola a bater no chão irregular desenhando diferentes ângulos, obrigando a uma adaptação técnica, a um ganho de agilidade. É o estimular da criatividade usando os obstáculos. É o saltar por cima de um muro e deslizar por baixo dum carro para recuperar a bola que se perdia. A velocidade a que tudo decorre quando enfrentas miúdos com mais três anos, e a forma como tens de te adaptar se pretendes continuar a ser escolhido. É a persistência que adquires enquanto na baliza esperas pela tua oportunidade. Nada é oferecido! É o levantar permanente da cabeça porque não há equipamentos ou coletes, e tu tens de ver tudo. É o driblar quatro amigos porque não conseguiste vislumbrar um colega. É o tempo totalmente gasto a jogar. É o saber onde a bola não pode entrar, porque naquele quintal o vizinho vai furá-la! A variedade de situações... de jogo!

Deixem as crianças ser crianças. Deixem os miúdos driblarem, os defesas ter a bola no pé, não apressem o guarda redes nas reposições de bola e forcem apenas no sentido de os fazer perceber o jogo e não a posição.

"Joguei à bola todos os dias da minha vida desde os três anos" Messi.

Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister? As academias têm uma função tão ou mais comercial que formativa.

"Eu quero é que joguem na desorganização" Francisco Silveira Ramos.

Quantos perceberão verdadeiramente o alcance das palavras de uma das grandes referências do futebol em Portugal? 

"Se treinam na posição X e depois jogam na Y ficam confusos" atirou-me um treinador que lida com meninos da pré-competição! A maluquice da organização está a castrar todo o desenvolvimento dos jovens futebolistas. "Eu quero mesmo é que aprendam na confusão. Que descubram caminhos. Que os inventem!"

Na rua formavam-se jogadores e homens competitivos. Minimizar as perdas do tempo de empenhamento motor e as perdas de carácter / personalidade pelas facilidades com que tudo é obtido na actualidade é o maior desafio que os treinadores enfrentam nos dias de hoje. E todos sabemos como tantas vezes os pais e dirigentes, pelo desconhecimento, são mais um entrave ao que é o correcto.

Texto original publicado há um ano atrás no "Lateral Esquerdo" aqui.

Relembrado após a visualização do excelente artigo do Maisfutebol aqui.

sábado, 16 de maio de 2015

Na rua os pais não dão instruções. Por que é que o fazem no treino e no jogo?

Tarde passada num torneio de Petizes do lado da bancada a ouvir os pais. E  aos já tradicionais chuta seja lá de que forma for, e marca o teu, os pais brindaram-me com uma novidade - Então eles ainda não sabem quem tem de lançar a bola?! Com miúdos de 6 anos os pais querem que a equipa esteja tão organizada que inclusivamente os marcadores de lançamentos de linha lateral estejam definidos. E são tão veementes a gritar para dentro de campo, dando instruções constantes aos miúdos do que fazer, do como fazer, do quando fazer, que é impossível a qualquer treinador pedir que não se oiça os pais ou que não faça nada do que eles pedem. Com este tipo de dificuldades, com este tipo de pensamento, não é de admirar que dos 25 jogadores que inicialmente compunham a equipa de Infantis7 que treinei apenas 3 soubessem executar correctamente um lançamento de linha lateral. Está tudo tão formatado, os jogadores das linhas é que lançam, os mais altos é que vão para a área nos cantos, os mais rápidos é que jogam na frente... Assim se percebe perfeitamente o porquê da esmagadora maioria dos formandos apresentar grandes lacunas em alguns dos aspectos mais relevantes para o jogo. Pobreza de estímulos no treino e em jogo. Reforço daquilo em que são mais fortes mas total esquecimento daquilo em que são mais débeis.

Deixem os miúdos aprender, passar pelo maior número de situações possível na baliza e fora dela. Deixem que melhorem no que têm dificuldade e percebam que isso vai levar a que errem muitas vezes. Deixe a organização e especialização para mais tarde porque depois, no último minuto de uma meia final da Liga dos Campeões, o seu filho poderá ser o Guarda Redes que executa mal um lançamento, entregando a bola ao adversário e esgotando os segundos preciosos que se precisam para se conseguir o resultado.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O essencial no treino de jovens

"Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister?"
Maldini & Lateral Esquerdo, aquiaqui, aqui, e aqui.

Não é de hoje a nossa preocupação com o treino na formação, por sabermos olhar para o que se passa à nossa volta e perceber que algo de muito errado vai na cabeça de quem operacionaliza o treino. O futebol de rua foi-se, e ficámos agarrados a isso como desculpa para o fraco desenvolvimento dos nossos miúdos, dizendo que lhes faltam horas de prática, que já não há a magia da rua. Sem nos apercebermos que, tendo as condições mudado, dificilmente se conseguirá voltar a atingir a excelência sem alterar o método, sem uma adaptação a um novo contexto. Hoje, trago o exemplo de um exercício de treino que tinha tudo para resultar, menos o essencial.
O exercício, repare, tem tudo para funcionar. A sua simplicidade (2x1+GR) não demonstra o quão rico é, e ainda mais o seria acrescentado uma ou duas regras. Mas assim como está, já tem o fundamental para que qualquer jogador jovem possa evoluir dentro de vários parâmetros. Tem oposição, tem cooperação, tem finalização, o jogo está orientado. Porém, por trás no número 11 encontra-se uma fila de 8 jogadores. E com isso, mata-se completamente o exercício, dentro daquilo que é importante para o treino dos miúdos, e aquilo que o futebol de rua levou - Empenhamento motor em situação de jogo. Cada um destes miúdos, que estiveram 15 minutos nesta tarefa teve cinco segundos de empenhamento motor, dentro da situação que interessava evoluir, para um minuto e quarenta e dois segundos parado. Leu bem?! 5s - 102s. Ao final dos 15 minutos, cada jogador fez dez remates, e esteve dez minutos parado. Perdeu dois terços do exercício a assobiar para o ar. Do outro lado, o restante grupo fazia 1x0+GR depois de ultrapassar uma pista de obstáculos, novamente com uma fila enorme associada. Sendo que desta vez, a situação ditava cinco segundos de empenhamento motor para trinta e cinco segundos de espera. Não se pretende criticar os exercícios, ou as intenções que o levaram a ser operacionalizado, desta forma, durante 30 minutos de um treino de jovens. Pretende-se sim fazer perceber que é grave, gravíssimo, um miúdo passar mais de metade do tempo em que devia estar a treinar parado. Sobretudo quando não existe uma situação social adequada para que os miúdos tenham horas de pratica sem fim, como tiveram no passado.

Sobre estes dois exercícios, e com 3 GRs e 2 treinadores disponíveis, dois terços do campo para ocupar, eu teria dividido a equipa em dois grupos, e dentro desses grupos dividir por três equipas. Jogava-se numa situação de 3x3+3 em espaço reduzido, por exemplo, sendo que quem sofria golo passava a ser Joker. Contabilizava os golos de cada equipa e quem marcasse mais ganharia o jogo. Nesta situação, em superioridade gritante, é impossível que não  apareçam os 2x1, com possibilidade de transformar em 1x0+Gr e finalizar. O que acontecerá, também, dentro deste tipo de exercícios, é que as condições para finalizar serão quase sempre diferentes, obrigando quem finaliza a adaptar-se a cada situação, com o maior ou menor grau de exigência de cada uma. Também a quem faz o passe. Poder-se-à dizer que o exercício não garante um número de remates adequado, em termos de volume, para que os jogadores registem evolução. Mas qual é o número de remates adequado para o jogador evoluir? Pois. O que cria evolução, seja qual for o parâmetro, é a dificuldade para superar cada situação. É o encontrar de problemas diferentes, em contextos semelhantes. Aparecer a finalizar de diferentes ângulos, mais perto ou mais longe da baliza, com maior ou menor pressão, com o GR mais perto ou mais longe (da bola, da baliza) - com mais ou menos tempo -, com colegas melhor ou pior colocados, com bolas a virem de sítios diferentes e de formas diferentes, com o obrigar a ocupar diferentes espaços para finalização, etc... Isto é o futebol de rua: Adaptação à vários contextos em situação de jogo, sempre em jogo.

Alguma coisa deve estar a ser muito bem feita, em Portugal, para que num futebol treinado sem bola se consigam fazer alguns jogadores de grande qualidade!
Frase adaptada de José Boto

domingo, 29 de março de 2015

Então, porque terminámos com o jogo na rua e avançámos com as academias?

Uma obrigatoriedade dos tempos modernos, pois claro. 

O contexto actual que não permite que tantas crianças passem horas a fio na rua com a bola nos pés, como faziamos na nossa infância, é uma clara limitação ao aparecimento do talento. Os horários e vidas complicadas dos pais que não chegam sequer a saber que os seus filhos têm qualidades que deviam chegar aos clubes. E se o sabem, como levar os miúdos ao clube, quando os horários de trabalho são cada vez maiores? O aspecto financeiro. Onde jogar sem pagar?! 

Perdeu-se o futebol de rua.

E jogar na rua nada tem a ver com freestyle. Não tem a ver com organização, mas com tudo o que tem faltado nos programas orientados. É a bola a bater no chão irregular desenhando diferentes ângulos, obrigando a uma adaptação técnica, a um ganho de agilidade. É o estimular da criatividade usando os obstáculos. É o saltar por cima de um muro e deslizar por baixo dum carro para recuperar a bola que se perdia. A velocidade a que tudo decorre quando enfrentas miúdos com mais três anos, e a forma como tens de te adaptar se pretendes continuar a ser escolhido. É a persistência que adquires enquanto na baliza esperas pela tua oportunidade. Nada é oferecido! É o levantar permanente da cabeça porque não há equipamentos ou coletes, e tu tens de ver tudo. É o driblar quatro amigos porque não conseguiste vislumbrar um colega. É o tempo totalmente gasto a jogar. É o saber onde a bola não pode entrar, porque naquele quintal o vizinho vai furá-la! A variedade de situações... de jogo!

Deixem as crianças ser crianças. Deixem os miúdos driblarem, os defesas ter a bola no pé, não apressem o guarda redes nas reposições de bola e forcem apenas no sentido de os fazer perceber o jogo e não a posição.

"Joguei à bola todos os dias da minha vida desde os três anos" Messi.

Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos "XPTO" com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2x2, 3x3, 4x4, 1x2, 1x3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister? As academias têm uma função tão ou mais comercial que formativa.

"Eu quero é que joguem na desorganização" Francisco Silveira Ramos.

Quantos perceberão verdadeiramente o alcance das palavras de uma das grandes referências do futebol em Portugal? 

"Se treinam na posição X e depois jogam na Y ficam confusos" atirou-me um treinador que lida com meninos da pré-competição! A maluquice da organização está a castrar todo o desenvolvimento dos jovens futebolistas. "Eu quero mesmo é que aprendam na confusão. Que descubram caminhos. Que os inventem!"

Na rua formavam-se jogadores e homens competitivos. Minimizar as perdas do tempo de empenhamento motor e as perdas de carácter / personalidade pelas facilidades com que tudo é obtido na actualidade é o maior desafio que os treinadores enfrentam nos dias de hoje. E todos sabemos como tantas vezes os pais e dirigentes, pelo desconhecimento, são mais um entrave ao que é o correcto. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Futebol de rua em Munique

Muito se reconhece hoje a importância que o futebol de rua teve na formação de tantos talentos. Afinal o que oferta o futebol de rua aos jovens praticantes que estes não encontram, tantas vezes na prática orientada? Ao contrário do que por vezes se supõe não são as dificuldades por pisos menos próprios que fazem crescer os talentos. A chave de tudo está no jogo. As crianças / jovens quando se juntam jogam. E é isso que tantas vezes não encontram nos treinos.

Na prática organizada pelos seus treinadores. A chave de todo o processo de treino é o jogo. E por jogo não entenda os formais 7x7 ou 11x11. Tudo é jogo quando tem oposição, duas balizas e os atletas sempre na tarefa e não à espera em filas. Que melhor forma de treinar situações de 2x1 que colocando os atletas a jogar 2x2 com a obrigatoriedade da equipa que não tem a posse da bola ter guarda redes? Em 10 minutos de jogo, os jogadores somam 10 minutos de tempo de empenhamento motor. Para o mesmo objectivo, com filas, por vezes em 10 minutos somam 2 ou 3 de prática. Ao menor tempo na tarefa, junte o ´ligar/desligar´ constante que nunca enfrentam na competição onde têm de estar sempre concentrados. Com criatividade nas regras / condicionantes nos exercícios, todos os objectivos podem perfeitamente ser treináveis em jogo ajudando os atletas a cumprir com mais qualidade os critérios de êxito. 

E é sobretudo pelo constante jogar que hoje é tão reconhecido o futebol de rua. Se a este jogar sempre em actividade, sempre ligados que a rua proporciona aos mais jovens, lhe juntarmos a total ausência de coarctação da sua individualidade (´...é preciso deixarmos que os miúdos sejam individualistas aos 10,11 anos, para termos jogadores de futebol aos 20´ Francisco Silveira Ramos), sabemos que por vezes estão melhor entregues a si mesmos que a treinadores que desde bem cedo pretendem um jogar totalmente mecânico, sem rasgos de criatividade que complementem o modelo de jogo que preconizam nas suas mentes. Há que ensinar e não decorar a jogar. A evolução dos jovens dá-se sobretudo com as experiências que vivenciam. Pouca relevância terá a parte teórica ou verbal que treinadores e pais sempre procuram incutir. É preciso errar e deixar errar para haver evolução. 

Refere Daniel Coyle no ´Talent code´ que as aprendizagens se efectuam dez vezes mais rápidas quando há um erro para corrigir. Para errar há que jogar (2x2, 3x3, 4x4, 3x3+Joker, 4x4+Joker, o que for, mas jogar). Jogar na competição, mas essencialmente no treino porque é ai que os atletas mais horas passam. Menos filas, menos decisões tomadas pelo treinador, mais jogo, maior valorização do talento e do potencial. Maior trabalho sobre os que poderão mais tarde dar mais e não os deixar cair porque não seguem todos os comportamentos mecânicos e pré estabelecidos do modelo de jogo definido. É a única forma de no futuro podermos voltar a ter os talentos em qualidade e quantidade de outrora.



P.S. - Não há qualquer juízo de valor em relação ao video. Nem para o bem nem para o mal. Mas, se há dois marcadores com iguais capacidades, parece uma bela forma de decidir quem marca...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O futebol de rua e o que os treinadores estão a fazer errado.

"Sou bom porque aprendi a jogar no meio da rua... tinha de usar as paredes que me ajudavam a fazer tabelas... Aprendi tudo no alcatrão" Rooney. 

"...é preciso deixarmos que os miúdos sejam individualistas aos 10,11 anos, para termos jogadores de futebol aos 20" Francisco Silveira Ramos.

Numa era em que parece mais do que nunca escassear o talento, procuram-se explicações. É possível que na era vivida sem treinadores ou sem treinadores qualificados tenham aparecido mais e melhores jogadores? E o que mudou?

Sobretudo os espaços que interferem com o tempo de prática. Hoje as crianças / adolescentes não têm possibilidade de jogar futebol para além dos treinos organizados, exceptuando os trinta minutos de intervalos na escola. A base de recrutamento é infinitamente inferior, porque nem todos os pais têm possibilidade de ter os miúdos a praticar actividade física. Aquela que outrora fazíamos por nós, atrás do prédio, na terra, na calçada ou no alcatrão.

E se a incrível redução do tempo de prática é uma desvantagem demasiado dura de ultrapassar, o que dizer quando o menor tempo de prática que encontram não é direccionado de forma qualitativa para o desenvolvimento individual do jovem jogador?

O fenómeno Mourinho trouxe milhentos pontos positivos. Porém, há sempre algo de negativo que aparece por arrasto. Hoje todos queremos ser treinadores, e o estilo de Mourinho pode trazer ideias erradas. As estrelas, o foco, os importantes, não são os treinadores. São os jogadores. Estamos numa era onde todos querem ser Mourinho ou Guardiola. Todos pretendem brilhar por cima dos jovens jogadores. Formatam-se as crianças desde bem cedo (9-10-11-12 anos) para ideias de jogo que coarctam a sua individualidade. O seu talento, as suas ideias, a sua criatividade, tudo é trocado por um ego maior. Os treinadores pretendem desde bem cedo criar bases mecânicas nos seus jogos. Tomar as decisões pelos seus jovens atletas, não os deixando expressar as suas qualidades.

E tudo se torna especialmente problemático quando no processo de treino se complica o que na verdade é tão simples. Não foi por ter treinado na rua que Rooney se tornou o jogador que é. Tivesse treinado num campo de futebol sem treinadores e com os mesmos colegas / adversários que encontrou na rua e as qualidades seriam as mesmas. A chave da rua não é o piso da prática, obviamente. É o jogo, sempre o jogo e a liberdade para decidir e aproveitar o seu talento.

Quantos treinadores quase não usam o jogo no seu processo de treino? Apenas circuitos, e formas jogadas que terminam invariavelmente sempre com as crianças a voltarem para trás de uma fila enquanto esperam para voltar à actividade (formas que são importantíssimas em determinados momentos, mas não são tudo). Quantos treinadores não preferem a força e a base padronizada (na decisão) ao talento e à imprevisibilidade? Quantos treinadores não matam o talento por não o potenciar em jogo (no treino ou na competição), valorizando características que o tempo revelará pouco importantes para chegar ao topo?

Quantos jovens atletas não estão a ter apenas os vinte e cinco ou trinta minutos semanais do jogo do fim de semana como o melhor período de desenvolvimento? Quantos jovens atletas não passam a semana sem jogar futebol mesmo treinando futebol? E por jogo não entenda o formal 7x7 ou 11x11. Duas balizas bastam, sem filas de espera. Sejam X contra X ou Y contra Y, ou até Y contra X.

O treinador é importantíssimo por todos os conhecimentos que poderá transmitir. Mas se fizer mal as coisas, será mais interessante juntar as crianças e deixá-las organizar a sua própria actividade. Verá que se dividirão por duas equipas e jogando descobrirão o caminho.