Num passado não tão distante, neste blogue (AQUI), falava-se da forma como um defesa se deve comportar em situações onde o adversário se encontra enquadrado com a linha de fundo. Não por padrão, porque obviamente o jogo não é sempre igual e é o contexto que deve ditar cada comportamento. Mas, por percepção daquilo que dará menos possibilidades ao adversário de ferir a nossa baliza. Se é certo que cada situação é uma situação diferente, é igualmente certo que por principio devemos ter como objectivo afastar ao máximo o adversário do êxito. Ou seja, se ele conduz para a linha de fundo que continue a conduzir por aí. Não só porque fecha o ângulo e o Guarda-Redes tem muito mais hipóteses de defender a baliza porque a baliza fica "menor", mas também porque retira opções ao portador da bola para prosseguir com o lance. Nos dois golos sofridos pela Rússia, o mesmo princípio aplicado e a probabilidade de golo cairia certamente. Tal não significa que o lance não fosse acabar dentro baliza, apenas que quem tem a bola fica com piores condições para decidir o lance. Não há que retirar mérito a quem aproveita tal comportamento defensivo, e faz por aumentar as suas próprias probabilidades de fazer golo, como fizeram Hamsik e Weiss. Apenas reforçar que por mais brilhante que fosse o mesmo tipo de execução, com outro tipo de comportamento defensivo a execução teria que ser de outro mundo.
Perguntou-me ontem um grande amigo, uma das pessoas que vale a pena ler e sobretudo seguir o muito sucesso que na prática as suas ideias têm "Aquelas indirectas do José Boto são para ti, certo? Jogar o que o jogo pede...". Sobre vários textos publicados num grupo já bem extenso (ultrapassa o milhar de pessoas!) de "facebook" do conhecido e reconhecido prospector do futebol profissional do SL Benfica.
E continuou "... ele está a interpretar mal. Fala sempre nisso entre jogo curto e apoiado e jogo directo, quando o que tu queres dizer e eu concordo é a opção pelo contra-ataque, ataque rápido ou posse e circulação e jogo curto e apoiado... o que eu também defendo e está explicito no meu modelo de jogo... Mas eu, e acredito que tu, subscrevemos a ideologia que ele defende, de posse e jogo curto, apoiado, preferencialmente interior, etc. Não acredito que ele defenda que nunca se deve contra atacar ou decidir um ataque rápido perante espaço e / ou vantagem numérica."
Gostaria muito de ter a atenção que o meu caro amigo pensa que tenho de alguém tão competente e ligado ao futebol profissional de um clube tão importante. Contudo, duvido que esse seja o caso. Porém, tal pensamento sempre dá para elaborar um texto tentando explicar esta visão das melhores decisões. E se tal significa que não há estilo ou identidade.
Tudo começa na forma como se interpreta o que é uma boa decisão de um jogador em campo. A boa decisão envolve sempre o contexto. A oposição, o espaço e os colegas. Muito dificilmente, para não dizer que é de todo impossível, bater longo por cima de toda a gente na frente é uma boa decisão, uma vez que quem vai receber a bola, se a receber, fá-lo-à em condições deficientes. Quando pensamos numa equipa em organização ofensiva, em ataque posicional, muito dificilmente há tempo e espaço para algo diferente (se estivermos a falar de boa tomada de decisão) de muito toque, muito passe por forma de desposicionar o adversário para então sim, no momento ideal, procurar a ruptura. E se a boa decisão prevalece então o tempo de posse tenderá a aumentar. Porque há a tal paciência para esperar pelo momento certo. E há qualidade para tomar as decisões correctas. Uma equipa que se queira grande passará sempre a maior parte do tempo de jogo em organização ofensiva. Se nessa organização ofensiva for sempre capaz de tomar boas decisões, será natural que a posse de bola cresça exponencialmente. Mas, essa é uma consequência das boas decisões que toma. Porque nenhum adversário vai deixar de jogar com defesas centrais. Se alguém o fizesse... talvez a posse de bola não crescesse tanto... afinal, seria incrivelmente mais fácil procurar a ruptura e não seria necessário tanto tempo de paciência para construir e criar algo que já lá está! O Barcelona não trocava infinitamente a bola para ser aborrecido, como tantas vezes injustamente foi apelidado. Trocava para atrair adversários, para os enganar, fazê-los cair no seu engodo. E nunca só porque sim!
Em suma, naturalmente que as equipas que tomam as melhores decisões acabam sempre por ter um estilo de posse de bola, porque a maioria do tempo de jogo estarão em organização ofensiva. E lá está, se toma uma boa decisão é porque as probabilidades de manter a bola são muitas com a decisão tomada. Ao contrário do tradicional chutão e muita fé.
Mas, são também as melhores equipas aquelas que percebem o tempo ideal e o espaço ideal para sair rápido em contra-ataque quando há espaço e vantagem numérica. Por isso uma encantadora Alemanha. Uma equipa fantástica ofensivamente, com armas em ataque posicional ou em ataque rápido. Uma equipa de posse, porque tomando as melhores decisões em ataque posicional não entrega a bola sem ideias, sem que as probabilidades de quem a receba a conservar sejam elevadas.
Isto é que é jogar o que o jogo dá. Jogar o que o jogo dá não é remeter-se à defesa o tempo todo ou ao chutão longo na frente porque estamos pressionados. Não! É tomar as melhores decisões a cada instante. E as melhores decisões serão naturalmente as que conservarão a bola em organização ofensiva até que a tal brecha se abra.
Por isso ainda hoje o Barcelona de Guardiola perpetuado como a melhor equipa de sempre. Uma equipa de posse exacerbada, porque a perfeição na decisão garantia que praticamente não haviam perdas, mas também uma equipa incrivelmente eficaz nas rupturas e no aproveitar do espaço e tempo.
Ao minuto 3.32 do video, Real Madrid em posse. Dez segundos depois David Villa faria o quarto golo no derby. Porquê? Porque Messi controla o tempo e o espaço como nenhum mortal o faz. E quando recebe a bola em tais condições, pouco importa quantos passes houve anteriormente. O desposicionamento já está criado.
Em suma, obviamente que uma equipa que jogue o que o jogo dá, tomando boas decisões, será sempre uma equipa com muita posse de bola. Essa será sempre a sua identidade. A menos que haja quem creia que bater no ar é menos aleatório e portanto melhor decidido do que progredir sem oposição ou passar a um colega mais próximo em tais condições. Todavia, já lá vão muitos anos que o blog foi criado e nunca foi essa a ideia que se passou... E nem é preciso ter-se capacidades de interpretação fantásticas para se perceber isso.
O seu melhor período no jogo. Não conseguiu regra geral enquadrar na recepção, nem conduzir fixando. Demasiadas vezes a perder tempo com as suas pedaladas e outro tipo de show off inócuo, mas ainda assim, não foi na primeira parte que condenou as aspirações portuguesas. Apareceu com qualidade na finalização onde poderia ter sido mais feliz. Decidiu neste período bastante melhor que na segunda parte e ainda respeitou algumas movimentações dos colegas. É praticamente incapaz de desequilibrar em condução. Todavia, mesmo estando a léguas dos melhores do mundo em tudo o que não seja finalizar, não fez uma primeira parte horrível. Apenas não acrescenta. E se a bitola são de facto os melhores... a distância é muito grande. E não, não foi um jogo. São praticamente todos.
Quando não marca, já se sabe e já se debateu inumeras vezes a qualidade das suas prestações...
Há cerca de sete anos atrás, num FC Porto x SL Benfica disputado no Algarve, na final da Taça da Liga, surpreendeu o na altura treinador do SL Benfica. Por uma das primeiras vezes rompia com a sua zona defensiva pura e acrescentava uma marcação individual nas bolas paradas. O alvo individual era Bruno Alves, naturalmente. O jogador escolhido para o marcar individualmente... Carlos Martins. Talvez de todos os encarnados o menos capaz de lutar no ar contra o invencível Bruno Alves.
A razão? Se o duelo estava perdido à partida, alguém iria atrapalhar. Mas e porque estaria o duelo perdido havia que não gastar as melhores "balas", guardando-as para uma zona diferente onde se disputaria posteriormente a bola proveniente de Bruno Alves.
Hoje Danilo jogou somente porque no ar poderia fazer frente. Não ganhou uma bola o jogo todo. Perdeu-se uma bola.
Lamentável Cristiano Ronaldo. Não fosse futebol profissional e garantidamente que em um mês não mais colega algum se desmarcaria quando a bola chegasse aos pés do capitão. Um horror.
Se a presença se justifica apenas pelos momentos defensivos, Danilo tem muito que melhorar ao nível do posicionamento. Mas não só! Também a abordagem individual aos lances se notam imensas dificuldades. Na única situação de golo, e nas duas outras situações de potencial da pobre Islândia Danilo sempre no foco, em dificuldade em ajustar o seu posicionamento em função da situação de jogo bem como na forma de abordar o lance quando é ele o responsável pela contenção. Sabendo-se que é difícil parar o adversário, há que lhe dar a pior opção para dar seguimento ao lance. Fechar o ângulo, reduzir as hipóteses de visar a baliza. Escolher o "melhor" dos males. Fica aqui o erro melhor aproveitado.
- Também Portugal rendido ao 442. Incrível como nos últimos 4, 5 anos a tendência para se jogar em 433 decresceu abruptamente e hoje uma percentagem muito significativa de clubes e selecções a nível mundial apresentam um 442 muito claro no momento defensivo;
- Apesar das dúvidas que se colocavam sobre si, Moutinho sempre a aparecer em bom nível nas provas grandes. Sempre com qualidade quando em passe liga a construção com a criação;
- André Gomes, com grande classe mesmo no corredor lateral. Futebol pausado e pensado. Qualidade técnica e inteligência nos espaços onde pede a bola. Sempre opção para receber já no bloco adversário;
- Danilo a ocupar uma vaga que poderia facilmente ser de outrém. Em campo unicamente para momentos defensivos. Sempre a lateralizar sem arriscar jogar dentro. Presença a justificar-se somente pelos momentos defensivos;
- Adversário tão baixo, as dificuldades para criar desequilibrios aumentam. Tipo de jogo perfeito para baixar Moutinho e juntar-lhe Renato. Alguém na posição seis que ofensivamente acrescentaria e o jovem do Bayern com grande capacidade para em posse desequilibrar a linha média adversária. Um risco que perante o desnível visto na primeira parte se justificava completamente. Uma ideia muito mais ofensiva, muito mais capaz de provocar desequilibrios na rigida estrutura adversária apenas com uma pequena troca;
- Ricardo. Ainda a classe de sempre. A velocidade com que antecipa tudo e sai com bola.
Incrível a ausência de qualidade colectiva nos momentos defensivos numa das mais talentosas equipas da Europa.
Os hábitos de referências individuais sem bola a tornarem-se mais nefastos ainda por baterem num sistema táctico adversário pouco habitual. Jogadores belgas sem perceber posicionamentos. Laterais sem ninguém para marcar, fora do jogo nos momentos defensivos e centrais arrastados para fora da posição seja em profundidade seja em largura, e corredor central com imenso espaço para explorar.
E quando há espaço e a situação numérica é vantajosa? Demonstra a selecção italiana. Reforçando um post anterior. É sempre mais fácil chegar ao golo perante menor oposição e mais espaço que o contrário. "Quem não aproveita o contra ataque é estúpido. É uma ferramenta fantástica no futebol. Uma arma que tens. Quando apanhas o teu adversário descompensado tens uma oportunidade estupenda para fazer golo" José Mourinho.
O "problema" da selecção italiana é que comparada com as suas congéneres espanhola e alemã, é gritante a incapacidade para mostrar nível semelhante aos seus em ataque posicional. E mesmo que em provas a eliminar tal possa não ser impeditivo de se lá chegar, é certo que ser-se débil em qualquer que seja o momento reduz as possibilidades...
Olha-se para a selecção italiana e percebe-se o dedo do treinador. Os mesmos movimentos que realizava na sua Juventus, mas sem a qualidade de passe e de decisão das grandes individualidades que dispunha. Ainda assim, é impossível dissociar a forma como esta selecção joga, em termos de sistema e de dinâmica daquilo que Conte nos habituou no passado. Para o bem e para o mal é este o modelo de jogo em que acredita, e vai com ele para tudo.
Beneficia do facto de ter trabalhado com os três de trás mais Buffon durante muito tempo. E da forma como obstinadamente repete os movimentos ofensivos e defensivos para que se traduzam no comportamento da equipa em campo. A pressão, a forma como tenta sair, mostram que tudo tem o seu dedo. Muito por melhorar, mas o trabalho está lá.
Muito forte a dinâmica dos dois avançados, e de um médio que se movimenta por diversas vezes para receber na profundidade. E esse é um dos movimentos que trabalha mais difícil de parar. Difícil porque um dos avançados se movimenta para receber entre sectores, enquanto outros tentam explorar o espaço nas costas. Os avançados a servirem ambos como apoio frontal, por forma a atrair elementos da última linha e depois libertar nos alas. Bonucci a solicitar movimentos de ruptura com demasiada qualidade para ser verdade. A forma notável como esperam pelos laterais que aparecem de uma linha mais recuada, e variam o jogo interior com o jogo exterior. Os laterais a aparecerem muito bem a dar largura, mas sempre a fechar a desmarcação aproximando-se da baliza quando assim se impõe. Notou-se alguma desorganização defensiva onde muitos jogadores não sabiam para onde ajustar, por não ser o sistema mais equilibrado e fácil de trabalhar.
Há não muito partilhava aqui no blog as fantásticas declarações de Tuchel, o treinador do Dortmund. "...o futebol é muito complexo... é muito dinâmico. A bola está sempre a mover-se, é difícil controlar o jogo, o número de golos é reduzido e demasiado acontece de forma aleatória. Por isso é errado olhar para o resultado"sobre a forma como se deve avaliar o processo.
Pensava nesta aleatoriedade enquanto recordava um facto que o espelha. Alemanha e Espanha, selecções que nas individualidades, no colectivo e no seu estilo de posse, sempre com as decisões correctas, demonstraram o quão superiores em ataque posicional / organização ofensiva são a todas as outras que já entraram em prova... não foram capazes de chegar ao golo no momento do jogo em que mais tempo conseguem passar. Sim, conseguem. Não basta querer.
Alemanha chegou ao golo numa bola parada e num contra-ataque. Não sendo também de negligenciar o muito perigo que foi sempre capaz de criar sempre que decidiu sair rápido em transição. Espanha com comportamentos extraordinários em ataque posicional, com gente entre linhas, criatividade, movimentos de apoio do avançado a tocar de frente nos médios já dentro do bloco adversário, com um Iniesta extraterrestre a tomar as rédeas da criação de nuestros hermanos, ainda assim, sem ter chegado ao golo dessa forma.
Tudo porque como refere Tuchel, quando avalias o processo, é preciso saber que demasiado acontece de forma aleatória. Quer Espanha quer Alemanha as melhores em organização ofensiva não almejaram (ainda) marcar em tal momento. Mas tudo se explica pela aleatoriedade? Naturalmente que não. Será obviamente mais difícil chegar à oportunidade quando o adversário parte com dez atrás da linha da bola, do que quando se recupera a bola e sobram somente dois ou três atrás. Por isso as melhores equipas do mundo jogam consoante a situação de jogo. Capazes de em organização ofensiva manter a paciência e ter um estilo acentuado de posse como forma de desposicionar o adversário, mas também capazes de identificar os momentos para sair em ataque rápido ou em contra-ataque. Por isso, em tempos José Mourinho referiu "quem não aproveita o contra ataque é estúpido". O difícil, porém, é perceber quando se deve investir no contra-ataque e quando o parar e manter a posse. Alemanha fá-lo como ninguém. Porque tentar sair sempre em contra-ataque, independentemente do espaço e ralação numérica... é igualmente estúpido!
Importa também perceber que aproveitar o contra-ataque não se poderá nunca opor ao estilo de posse. E que quem o faz, não estará nunca a controlar o jogo, pelo simples facto de abdicar em demasia do mais importante. A bola. Tudo depende da situação de jogo. O espaço, a oposição e os colegas. É sempre a situação que determina a decisão. Há espaço e vantagem numérica impõe-se sair rápido. Perdeu-se a vantagem espacial e numérica, guarda, e troca à procura ou do desposicionamento adversário ou do chegar dos colegas aos espaços mais prometedores.
A roja apresentou-se em grande nível, sendo que foi a equipa que teve que fazer mais em organização ofensiva tendo em conta o número de pernas e o pouco espaço que foi sempre obrigada a enfrentar. Ainda assim superou, mesmo que tecnicamente as coisas nos espaços reduzidos não tenham saído perfeitas. É notável a forma como conseguiram criar várias situações de golo, algumas delas nem deram finalização, sabendo-se da dificuldade que lhes estava a ser colocada. É preciso admirar muito estes jogadores por isso. Sem espaço e com muitos pela frente conseguem criar como ninguém. Como se disse no início, com este grupo de jogadores, com esta criatividade, tudo é possível. Em organização ofensiva, para já os melhores.
Iniesta acaba de rubricar a melhor exibição individual do torneio até ao momento, e a bitola ficou tão alta que não sei se será possível ao longo do mesmo alguém superar. Simplesmente sublime a forma como demonstra a cada toque na bola que continua a ser, desde o século passado, o melhor médio do mundo. Nem de telescópio os outros lá chegam.
O que é um bom treinador?
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Os princípios gerais dos desportos colectivos defendem que *em cada momento
do jogo* a equipa deve recusar a inferioridade numérica, evitar a igualdade
n...
How can you rehearse something new?
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— Lavolpismo (@salehruba199) June 22, 2016
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