domingo, 26 de junho de 2016

A decisão do Renato

Venham daí opiniões sobre a decisão. Se acertou, sobre o porquê do acerto. Se errou, como poderia ter feito melhor. Teria sido melhor soltar logo no Ronaldo? Porquê? Havia outra opção que não soltar no Nani? Qual? Que decisão do início ao fim do lance poderia ter catapultado o potencial para um lance golo evidente depois de Renato decidir soltar a bola?

sábado, 25 de junho de 2016

O miúdo que nos tira do marasmo

Errou passes, sim. Tem lacunas no preenchimento de espaços também. Mas caramba, como é que o miúdo é suplente atrás de tanta gente?! Guarde este texto. Daqui por uns anos vamos todos rir e gozar com a situação de termos tido Renato quase sem jogar num Europeu. Alguém dirá que era muito novo. Não é. Está pronto e é o melhor de todo um sector.

É tão diferente para melhor ofensivamente de todos os médios portugueses que é incompreensível como não tem mais minutos. Ainda que comece a parecer que Fernando Santos o usa para "abanar" o jogo.

A cada bola que recebe mais próximo do último terço, ou até do segundo, a forma agressiva como conduz na direcção da meta, não tem semelhanças com mais ninguém. Caramba, o miúdo não é suplente do Modric ou do Rakitic. O que seria óbvio nesta fase da sua carreira. Como pode alguém que com bola faz tão mais que todos os outros, faz tão diferente, desequilibra só por a conduzir, não jogar numa selecção portuguesa cujos médios são incapazes de criar um princípio de desequilibrio sequer?

Enquanto observava o jogo percebia-se. Ou cai alguma bola nos pés do miúdo para que surja algo diferente, ou nem em 10 jogos haveria um golo. Felizmente caiu. Não a guardou, não se virou para trás. Acelerou e o resto é história!

P.S. - Escolheste muito bem com quem trocar a camisola, Modric. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Cristiano por Rui Costa

"Os portugueses têm de perceber que Cristiano não é o jogador que era há dez anos. E já não o é há alguns anos. Ele especializou-se em fazer golos" Rui Costa, ontem à noite num programa da TV portuguesa.

O génio da camisola dez portuguesa, o mesmo que com as suas decisões trouxe o sucesso e virou as agulhas no futebol do SL Benfica, explica de forma bastante assertiva porque não podemos esperar que Cristiano Ronaldo continue a fazer a diferença e a ser assertivo na zona de criação.

A Ronaldo falta sobretudo quem, como Rui Costa, fosse capaz de o guiar. Os melhores anos de Cristiano na selecção não foram somente quando apresentava outras características. Foram sobretudo os anos em que tendo menos moral que os colegas, jogava para e com todos. Decidia em função de um bem comum.

Rui Costa não podia ter mais razão no que afirma. Todavia, cabe a Cristiano percebe-lo também!... e deixar de complicar fora da zona de finalização. O seu jogo é hoje totalmente diferente. É o melhor nove do futebol mundial e é na área que tem de continuar a mostrar serviço. Fora dela, é tocar e soltar. Sem protagonismos. Ficar somente à espera do momento e não o querer forçar. Os portugueses percebê-lo-ão logo que Cristiano também o perceba.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Cristiano, é só isso!

Num passado não tão distante, Jorge Jesus referia em entrevista: Há jogadores que criam para eles, há jogadores que criam para os outros, e depois os melhores que criam para eles e para os outros. E foi sempre desta forma que fomos entendendo o jogo como colectivo que é. Hoje, Ronaldo a ser capitão dentro de campo. Insuperável na forma como jogou e fez os seus colegas jogar. Dividiu com eles a responsabilidade e por isso mereceu ser feliz. A forma como foi dando seguimento quando serviu de apoio frontal, e quando pegava em zonas mais de construção é, no nosso entender, jogar o jogo de hoje.  Mais do que um finalizador, hoje conseguiu ligar o jogo servindo como referência ora frontal, ora lateral, sempre com boas decisões. Mantendo este perfil de jogo na competição será muito mais imprevisível, mais difícil de parar. Com ou sem golos é isto que se espera de um jogador do nível do nosso melhor, sempre. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

O melhor jogo do Europeu. Espanha x Croácia.

Tudo o que é bom futebol no jogo que levou a Croácia ao primeiro lugar do grupo.

Duas equipas com criatividade e qualidade técnica individual. Mas, sobretudo capazes e decididas a jogar tudo o que o jogo lhes dá. Não abdicam de momentos do jogo. Mesmo a Croácia que poderia perante tamanho opositor ser menos corajosa, sempre a assumir a bola quando em organização ofensiva. Sempre com armas em ataque posicional, mesmo que durante muito tempo tenha sido remetida pelo mérito espanhol para o seu momento de organização defensiva.

Ninguém se escondeu. Equipas com comportamentos bem acentuados em todos os momentos. Respeito entre ambas bem patente na forma como mantinham o rigor em cada momento. Organização ofensiva em ataque posicional - perda - ataque rápido - não há hipóteses de finalizar - segura - ataque posicional. Tudo muito bem encadeado, sempre com qualidade técnica e tomada de decisão assertiva bem expressa na forma como se construíam e criavam os ataques.

David Silva e Iniesta num momento extraordinário elevam o jogo espanhol para o expoente máximo de um jogo de decisões. Um prazer segui-los.

domingo, 19 de junho de 2016

O resultado e o jogo. Da base para o topo por ordem da Federação

Por aqui sempre fomos tendo em conta que o jogo era muito mais do que o seu resultado final. E quem olha para os dois primeiros resultados que a nossa selecção apresentou no Euro poderá ficar espantado e insatisfeito por dois motivos: 1) Pelo resultado. 2) Pelo que o jogo nos indiciou na forma de comportamentos colectivos e individuais dos jogadores.

O que a mim aflige realmente na selecção portuguesa não é a falta de qualidade dos jogadores à disposição do seleccionador nacional. Porque tirando uma ou outra opção é difícil (considerando as lesões) dizer-se que não são estes os melhores 23 para jogar o europeu em França. Temos qualidade para formar uma linha defensiva competente, um meio campo bom ao nível do rigor defensivo e criativo, e um ataque versátil e dinâmico nas suas acções. O que me aflige também não é o resultado, ou aquilo em que o resultado se poderia ter traduzido. É por demais evidente que Portugal foi a única equipa que poderia, tendo em conta as ocasiões criadas e concedidas, ter saído vitoriosa de qualquer um dos empates que somou até ao momento. Não é por aí. Tão pouco são as opções de Fernando Santos em termos de sistema de jogo, ou a composição para o onze inicial. Claro que, tenho a ideia de que com uma ou duas opções diferentes a coisa poderia melhorar. Mas, o maior problema, aquele de que ninguém fala, continuará. E esse problema vem de bases, e por isso nunca é demais relembrar Breitner em discurso directo (carregue no link). O que aflige realmente no jogo de Portugal é a pouca capacidade que temos para fazer isto:


Ou seja, resolver os problemas que o jogo nos dá de forma colectiva. Usar o colega para dividir, e resolver o lance. Pensar, como é que vou usar o posicionamento  do meu colega para tirar este/s gajo/s da frente? Passo-lhe e fujo, passo e fico? Não passo e vou eu, porque ele simulou que ia e levou dois com ele? Como é que me posiciono para dar mais hipóteses ao meu colega de resolver o lance com sucesso? Estas são questões que deveriam fazer parte de cada escolha que os nossos jogadores fazem com e sem bola, no ataque ou na defesa, que dificilmente passa por um número suficiente deles para que se possa traduzir num jogo verdadeiramente colectivo. O sucesso de Portugal tem vindo sobretudo do mérito e da qualidade individual de alguns atletas. O que fazemos em conjunto é residual. E o problema maior está no topo da cadeia, na federação. E em tudo aquilo que a mesma entende fazer parte das suas responsabilidades ou não. A federação tem como principal objectivo melhorar a modalidade no país, e para tal, o caminho a seguir é o da escolha de uma determinada matriz de jogo. Não interessa qual, interessa que se escolha uma. Interessa que todos na federação entendam esse jogo que se quer jogar, e com isso façam as escolhas para todas as selecções do tipo de jogador para jogar o jogo que se quer. Tudo começa aí, uma ideia comum. Jogadores que procurem pela mesma matriz, pelos mesmos estímulos. No fundo, como se deve fazer nos clubes só que num prazo muito mais longo, pelo tempo que não é permitido de treino nas selecções. A partir daqui tudo se desenvolve. E nunca mais a decisão de convocar X e não Y passará apenas pela figura do seleccionador, porque toda uma instituição estará por dentro do processo e por isso em condições de participar nele. E mesmo a forma como a Federação educa, e forma, os novos treinadores que no fundo são os que vão começar a trabalhar com a base e com os jogadores será diferente. Diferente na medida em que será direccionada para que os treinadores trabalhem e desenvolvam um determinado tipo de skills, viradas para o tipo de jogador que se quer para jogar da forma que se escolheu jogar. Sem esse passo fundamental, sozinho ninguém conseguirá mudar nada. Por mais qualidade que tenham alguns clubes na formação, nas bases. Por mais qualidade que um ou outro treinador venha a evidenciar no nosso campeonato. Por mais talentos soltos que vão surgindo ao longo do tempo, esses onze talentos continuarão sem se conseguir entender em campo. Sem a tal linguagem comum que permitirá fazer com que todos estejam sempre perfeitamente identificados com o que o colega de equipa pretende fazer. Tuchel dizia numa entrevista que nunca iria deixar de copiar os melhores treinadores do mundo, porque o objectivo dele era ser como eles. Se Portugal quer ser verdadeiramente relevante no futebol não deve ter vergonha de pegar na evolução que outros conseguiram e ajustar ao que por cá se pode fazer. Criar um denominador comum, para que a selecção seja muito mais do que onze individualidades soltas em campo. 

sábado, 18 de junho de 2016

Minuto 92 no Portugal x Austria

Ao contrário do que sucedeu em quase toda a partida com inúmeros cruzamentos para somente um, máximo dois jogadores na área, Ronaldo tem a bola na sua posse. Há vários colegas num sprint final a chegar à area para uma última tentativa. Cinco, seis portugueses na área no último lance do jogo. Ronaldo remata desenquadrado, de pé esquerdo contra um Austríaco e pouco depois a partida terminaria.

O segundo melhor do Mundo até fez um jogo interessante. Foi menos egoísta. Soltou mais vezes e apareceu com enorme qualidade nas zonas de finalização, ainda que hoje a sorte não o tenha acompanhado.

Da partida o lamento por algumas opções.

É muito fácil sentar Rafa. O miúdo talvez esteja feliz só por estar por ali, e é certo que a primeira afirmação que dirá pós jogo não será "eu estava bom, não joguei por opção" como forma de condicionar a opinião pública e influenciar as decisões do mister. O problema é que Rafa é no presente momento o melhor ala português. Naquele lugar, é hoje incrivelmente superior a João Mário, André Gomes, Quaresma e Nani. Capaz de desequilibrar  no último terço como nenhum dos outros e sempre responsável no jogo defensivo de espaços. É uma pena que o melhor ala português tenha 3 minutos na competição.

A evolução do jogo levou-o para sistemas e métodos defensivos que tornam cada vez mais difícil desequilibrar jogos em organização ofensiva. Portugal que não tem um único centrocampista com a criatividade, qualidade técnica e capacidade de decisão para descobrir novos caminhos, que não tem um único capaz de recebendo entre linhas enquadre em milésimos de segundos e se prepare para desequilibrar sofre bastante com isso. Sem gente capaz de ligar criação com finalização de forma sistemática, que não aos "solavancos", parece um desperdício que se abdique do único médio português que faz coisas diferentes. Não têm de ser necessariamente melhores. Mas é diferente. E essa diferença poderá fazer a diferença. Renato é hoje o único médio português capaz de queimar linhas com a bola no pé. Capaz de provocar desorganização na linha média adversária. Capaz de obrigar o adversário a posicionamentos diferentes e quem sabe menos confortáveis. É o único cuja condução na direcção da meta tem a agressividade suficiente para chamar, para atrair a si adversários e posteriormente jogar noutros espaços. É incompreensível como em jogos contra equipas com características tão defensivas. Contra equipas com linhas tão baixas, não se procura alguém que possa desorganizar o jogo, para além do típico passa - recebe - passa.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Nolito Nolito Nolito

Há quem justifique a presença de Nolito em campo pela roja com um "faz sempre falta alguém capaz de desequilibrar individualmente".

Curiosamente, desde a primeira hora que o vimos, e assim continua, é precisamente pela capacidade que tem de se integrar em termos colectivos que o espanhol impressiona.

Tudo o que faz tem ideias. Não há uma acção em Nolito que não seja pensada. Nada sai só porque sim. É incrível! Desde sempre demonstrou uma capacidade quase anormal de jogar com todas as variáveis. Muito mais do que somente posicionamentos, espaços ou timings mas até com posição de corpo de adversários e colegas. Todas as variáveis possíveis e imaginárias a condicionarem todas as suas decisões. Um génio a nível cognitivo como poucos. Imagina e vê tudo.

Em Outubro de 2011 (passível de espreitar na etiqueta Nolito) escrevia-se:

"Não há como não o admirar.

Se há jogadores que devem ser valorizados são os que sendo particularmente inteligentes, têm capacidade técnica para colocar na relva o que a mente alcança.

Há quem creia que Nolito é demasiado individualista. Jorge Jesus até faz parte do lote dos que têm uma percepção errada sobre as capacidades do espanhol. Se há algo porque se destaca é precisamente pela sua competência colectiva. São os timings para soltar a bola, é o trabalho para receber a bola, na forma como simula a profundidade para vir receber no pé, ou como se desmarca em ruptura quando o espaço à sua frente assim exige.

Dos seus pés, é certo que a bola sairá jogável. A sua capacidade de decisão de tão boa chega a ser invulgar nos jogadores que jogam no corredor lateral. É louvável a forma objectiva como joga, e aprazível a sua incessante procura do corredor central, onde as opções se multiplicam, a cada momento.

Menos rápido e menos talentoso que tantos outros, é a sua capacidade para definir com assertividade os lances que o tornam um jogador de eleição. É uma das figuras da Liga. De lamentar somente que tal se perceba somente pelo número de golos que já obteve. É que o seu jogo vai muito para além da sua competência na hora de finalizar."

O espanhol é a prova de que há demasiados jogadores fabulosos que passam pelos pingos da chuva sem serem reconhecidos. Esteve à beira de ser apenas mais um o craque que chegou à Luz proveniente da Catalunha. Porque o futebol merece, à beira dos trinta chegou onde sempre mereceu estar.

O momento e o menor fulgor de alguns dos melhores da Europa

A evolução do futebol trouxe-nos coisas muito positivas ao nível do jogo, e permitiu que cada vez mais o jogo fosse jogado como é: de forma colectiva. Com esse aumento da qualidade dos jogos, da organização táctica das equipas, aumentou a exigência. A exigência ao nível das capacidades intelectuais, sobretudo. Os espaços reduzidos obrigam a um desgaste muito maior, sobretudo do ponto de vista mental, pela velocidade a que os jogadores são hoje obrigados a jogar. E com essa evolução, e com o aumento do volume de negócio, não há jogadores relevantes em grandes equipas com menos de 50 jogos por ano. Quando no passado as melhores individualidades chegavam quase sempre em boa "forma" às competições internacionais hoje não é bem assim. É bom para o público porque passa o ano entretido com o jogo, mas não tão bom para os jogadores que jogam as fases finais das provas internacionais, não só pelo aumento da exigência de cada jogo em si, mas pelo desgaste acumulado ao longo de uma época muito mais longa.

E não se entenda "forma" como tradicionalmente se pensava nesse conceito. Forma, no sentido do jogador estar em perfeitas condições para render, sobretudo no aspecto mental que é este que mais pesa. É na tomada de decisão, e na capacidade de reacção que mais se nota. Se demora mais um segundo para perceber para onde o lance deve seguir o adversário já fechou, já antecipou, já desarmou. Se perde mais de um segundo a apertar quando perde, o adversário já tirou de lá a bola e a transição ofensiva já saiu. E este desgaste, hoje, é brutalmente superior ao que era no passado. Este aspecto, a condição em que os grandes jogadores chegam a competição, é tão fundamental para o seu desfecho quanto a qualidade de jogo que a equipa apresenta.

Ao olhar para a equipa alemã, percebe-se o desgaste em alguns dos seus jogadores mais importantes e isso pode ser um dado importante para as contas finais. Não só na selecção alemã se nota isto, e também não em todos os jogadores se percebe esse desgaste. Afinal, os jogadores não são todos iguais, e o que se exige deles ao nível de complexidade também é diferente. Logo, esse mesmo desgaste, ainda que exista em dois jogadores, pode perfeitamente passar mais despercebido num do que noutro, numa selecção do que noutra, pelas tarefas não serem tão exigentes. Ter os jogadores em melhor ou pior momento, a sentir mais ou menos o desgaste destas tão longas temporadas, vai ser umas das chaves para o sucesso ou insucesso neste Europeu.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cristiano Ronaldo na selecção

O conhecimento sobre o jogo aumenta e já se discute hoje a qualidade e sobretudo a importância de Cristiano Ronaldo no modelo português.

Torna-se mais claro de perceber quando no último minuto da partida a selecção portuguesa beneficia de um livre tão ao jeito de Raphael, que conta já com um histórico importante de golos em livres daquela zona, e... não é o miúdo a cobrar o livre. Porém, isso ainda é o menos importante.

Por hoje, com o país magoado pelo resultado da estreia no Europeu muito se debate tiques de vedetismo ou o inacreditável ego que Cristiano tem para alimentar. A sua personalidade é um entrave ao desenvolvimento de um jogar colectivo, naturalmente. 

Não se ignore, porém, o que é mais importante e que no fundo despoleta tudo. A falta de qualidade de Cristiano na tomada de decisão. Como referido por cá há imenso tempo, o português não acrescenta nada ao jogo da sua equipa que não os golos que marca. Fá-lo em quantidades industriais e tal é suficiente para justificar sempre a sua presença em campo. Como sucedia com Jardel, por exemplo. Mas, por amor de Deus não queiram alimentar discussões sobre o melhor do mundo. O jogo é mil vezes mais que rematar à baliza. Para que esse momento chegue há todo um trabalho para trás tão trabalhoso e ainda mais difícil que somente finalizar que... tem de ser feito! 

Alimentar a discussão sobre o melhor do mundo lançando do baralho um jogador cujas únicas qualidades se resumem ao processo ofensivo e a uma só fase é renegar tudo o que é o futebol nos dias de hoje.

Cristiano vai voltar a marcar e muito. Aí as dúvidas dos menos elucidados voltarão. Por cá afirma-se o mesmo de sempre. O português não vive no mesmo planeta do pequeno argentino que constroi, cria e finaliza.

Seja por vaidade, ego, ou simplesmente por incapacidade de perceber o que é melhor para a equipa, nunca alguém com tamanho nível de tomada de decisão que Ronaldo apresenta nos jogos por Portugal poderá entrar em lutas por prémios individuais que não relacionados com o número de golos que marca.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Rumba ao quadrado. A Rússia mostra como não fazer.

Num passado não tão distante, neste blogue (AQUI), falava-se da forma como um defesa se deve comportar em situações onde o adversário se encontra enquadrado com a linha de fundo. Não por padrão, porque obviamente o jogo não é sempre igual e é o contexto que deve ditar cada comportamento. Mas, por percepção daquilo que dará menos possibilidades ao adversário de ferir a nossa baliza. Se é certo que cada situação é uma situação diferente, é igualmente certo que por principio devemos ter como objectivo afastar ao máximo o adversário do êxito. Ou seja, se ele conduz para a linha de fundo que continue a conduzir por aí. Não só porque fecha o ângulo e o Guarda-Redes tem muito mais hipóteses de defender a baliza porque a baliza fica "menor", mas também porque retira opções ao portador da bola para prosseguir com o lance. Nos dois golos sofridos pela Rússia, o mesmo princípio aplicado e a probabilidade de golo cairia certamente. Tal não significa que o lance não fosse acabar dentro baliza, apenas que quem tem a bola fica com piores condições para decidir o lance. Não há que retirar mérito a quem aproveita tal comportamento defensivo, e faz por aumentar as suas próprias probabilidades de fazer golo, como fizeram Hamsik e Weiss. Apenas reforçar que por mais brilhante que fosse o mesmo tipo de execução, com outro tipo de comportamento defensivo a execução teria que ser de outro mundo.



Jogo de decisões não tem estilo ou identidade?

Perguntou-me ontem um grande amigo, uma das pessoas que vale a pena ler e sobretudo seguir o muito sucesso que na prática as suas ideias têm "Aquelas indirectas do José Boto são para ti, certo? Jogar o que o jogo pede...". Sobre vários textos publicados num grupo já bem extenso (ultrapassa o milhar de pessoas!) de "facebook" do conhecido e reconhecido prospector do futebol profissional do SL Benfica.

E continuou "... ele está a interpretar mal. Fala sempre nisso entre jogo curto e apoiado e jogo directo, quando o que tu queres dizer e eu concordo é a opção pelo contra-ataque, ataque rápido ou posse  e circulação e jogo curto e apoiado... o que eu também defendo e está explicito no meu modelo de jogo... Mas eu, e acredito que tu, subscrevemos a ideologia que ele defende, de posse e jogo curto, apoiado, preferencialmente interior, etc. Não acredito que ele defenda que nunca se deve contra atacar ou decidir um ataque rápido perante espaço e / ou vantagem numérica."

Gostaria muito de ter a atenção que o meu caro amigo pensa que tenho de alguém tão competente e ligado ao futebol profissional de um clube tão importante. Contudo, duvido que esse seja o caso. Porém, tal pensamento sempre dá para elaborar um texto tentando explicar esta visão das melhores decisões. E se tal significa que não há estilo ou identidade.

Tudo começa na forma como se interpreta o que é uma boa decisão de um jogador em campo. A boa decisão envolve sempre o contexto. A oposição, o espaço e os colegas. Muito dificilmente, para não dizer que é de todo impossível, bater longo por cima de toda a gente na frente é uma boa decisão, uma vez que quem vai receber a bola, se a receber, fá-lo-à em condições deficientes. Quando pensamos numa equipa em organização ofensiva, em ataque posicional, muito dificilmente há tempo e espaço para algo diferente (se estivermos a falar de boa tomada de decisão) de muito toque, muito passe por forma de desposicionar o adversário para então sim, no momento ideal, procurar a ruptura. E se a boa decisão prevalece então o tempo de posse tenderá a aumentar. Porque há a tal paciência para esperar pelo momento certo. E há qualidade para tomar as decisões correctas. Uma equipa que se queira grande passará sempre a maior parte do tempo de jogo em organização ofensiva. Se nessa organização ofensiva for sempre capaz de tomar boas decisões, será natural que a posse de bola cresça exponencialmente. Mas, essa é uma consequência das boas decisões que toma. Porque nenhum adversário vai deixar de jogar com defesas centrais. Se alguém o fizesse... talvez a posse de bola não crescesse tanto... afinal, seria incrivelmente mais fácil procurar a ruptura e não seria necessário tanto tempo de paciência para construir e criar algo que já lá está! O Barcelona não trocava infinitamente a bola para ser aborrecido, como tantas vezes injustamente foi apelidado. Trocava para atrair adversários, para os enganar, fazê-los cair no seu engodo. E nunca só porque sim!

Em suma, naturalmente que as equipas que tomam as melhores decisões acabam sempre por ter um estilo de posse de bola, porque a maioria do tempo de jogo estarão em organização ofensiva. E lá está, se toma uma boa decisão é porque as probabilidades de manter a bola são muitas com a decisão tomada. Ao contrário do tradicional chutão e muita fé.

Mas, são também as melhores equipas aquelas que percebem o tempo ideal e o espaço ideal para sair rápido em contra-ataque quando há espaço e vantagem numérica. Por isso uma encantadora Alemanha. Uma equipa fantástica ofensivamente, com armas em ataque posicional ou em ataque rápido. Uma equipa de posse, porque tomando as melhores decisões em ataque posicional não entrega a bola sem ideias, sem que as probabilidades de quem a receba a conservar sejam elevadas.

Isto é que é jogar o que o jogo dá. Jogar o que o jogo dá não é remeter-se à defesa o tempo todo ou ao chutão longo na frente porque estamos pressionados. Não! É tomar as melhores decisões a cada instante. E as melhores decisões serão naturalmente as que conservarão a bola em organização ofensiva até que a tal brecha se abra. 

Por isso ainda hoje o Barcelona de Guardiola perpetuado como a melhor equipa de sempre. Uma equipa de posse exacerbada, porque a perfeição na decisão garantia que praticamente não haviam perdas, mas também uma equipa incrivelmente eficaz nas rupturas e no aproveitar do espaço e tempo.

Ao minuto 3.32 do video, Real Madrid em posse. Dez segundos depois David Villa faria o quarto golo no derby. Porquê? Porque Messi controla o tempo e o espaço como nenhum mortal o faz. E quando recebe a bola em tais condições, pouco importa quantos passes houve anteriormente. O desposicionamento já está criado.




Em suma, obviamente que uma equipa que jogue o que o jogo dá, tomando boas decisões, será sempre uma equipa com muita posse de bola. Essa será sempre a sua identidade. A menos que haja quem creia que bater no ar é menos aleatório e portanto melhor decidido do que progredir sem oposição ou passar a um colega mais próximo em tais condições. Todavia, já lá vão muitos anos que o blog foi criado e nunca foi essa a ideia que se passou... E nem é preciso ter-se capacidades de interpretação fantásticas para se perceber isso.

terça-feira, 14 de junho de 2016

A primeira parte de Cristiano.

O seu melhor período no jogo. Não conseguiu regra geral enquadrar na recepção, nem conduzir fixando. Demasiadas vezes a perder tempo com as suas pedaladas e outro tipo de show off inócuo, mas ainda assim, não foi na primeira parte que condenou as aspirações portuguesas. Apareceu com qualidade na finalização onde poderia ter sido mais feliz. Decidiu neste período bastante melhor que na segunda parte e ainda respeitou algumas movimentações dos colegas. É praticamente incapaz de desequilibrar em condução. Todavia, mesmo estando a léguas dos melhores do mundo em tudo o que não seja finalizar, não fez uma primeira parte horrível. Apenas não acrescenta. E se a bitola são de facto os melhores... a distância é muito grande. E não, não foi um jogo. São praticamente todos.

Quando não marca, já se sabe e já se debateu inumeras vezes a qualidade das suas prestações...



Pensar fora da caixa

Há cerca de sete anos atrás, num FC Porto x SL Benfica disputado no Algarve, na final da Taça da Liga, surpreendeu o na altura treinador do SL Benfica. Por uma das primeiras vezes rompia com a sua zona defensiva pura e acrescentava uma marcação individual nas bolas paradas. O alvo individual era Bruno Alves, naturalmente. O jogador escolhido para o marcar individualmente... Carlos Martins. Talvez de todos os encarnados o menos capaz de lutar no ar contra o invencível Bruno Alves.

A razão? Se o duelo estava perdido à partida, alguém iria atrapalhar. Mas e porque estaria o duelo perdido havia que não gastar as melhores "balas", guardando-as para uma zona diferente onde se disputaria posteriormente a bola proveniente de Bruno Alves.

Hoje Danilo jogou somente porque no ar poderia fazer frente. Não ganhou uma bola o jogo todo. Perdeu-se uma bola.

Lamentável Cristiano Ronaldo. Não fosse futebol profissional e garantidamente que em um mês não mais colega algum se desmarcaria quando a bola chegasse aos pés do capitão. Um horror.

De dois males escolher um... o pior!

Se a presença se justifica apenas pelos momentos defensivos, Danilo tem muito que melhorar ao nível do posicionamento. Mas não só! Também a abordagem individual aos lances se notam imensas dificuldades. Na única situação de golo, e nas duas outras situações de potencial da pobre Islândia Danilo sempre no foco, em dificuldade em ajustar o seu posicionamento em função da situação de jogo bem como na forma de abordar o lance quando é ele o responsável pela contenção. Sabendo-se que é difícil parar o adversário, há que lhe dar a pior opção para dar seguimento ao lance. Fechar o ângulo, reduzir as hipóteses de visar a baliza. Escolher o "melhor" dos males. Fica aqui o erro melhor aproveitado.


Primeiros 45 minutos portugueses no Euro 2016

Notas.

- Também Portugal rendido ao 442. Incrível como nos últimos 4, 5 anos a tendência para se jogar em 433 decresceu abruptamente e hoje uma percentagem muito significativa de clubes e selecções a nível mundial apresentam um 442 muito claro no momento defensivo;

- Apesar das dúvidas que se colocavam sobre si, Moutinho sempre a aparecer em bom nível nas provas grandes. Sempre com qualidade quando em passe liga a construção com a criação;

- André Gomes, com grande classe mesmo no corredor lateral. Futebol pausado e pensado. Qualidade técnica e inteligência nos espaços onde pede a bola. Sempre opção para receber já no bloco adversário;

- Danilo a ocupar uma vaga que poderia facilmente ser de outrém. Em campo unicamente para momentos defensivos. Sempre a lateralizar sem arriscar jogar dentro. Presença a justificar-se somente pelos momentos defensivos;

- Adversário tão baixo, as dificuldades para criar desequilibrios aumentam. Tipo de jogo perfeito para baixar Moutinho e juntar-lhe Renato. Alguém na posição seis que ofensivamente acrescentaria e o jovem do Bayern com grande capacidade para em posse desequilibrar a linha média adversária. Um risco que perante o desnível visto na primeira parte se justificava completamente. Uma ideia muito mais ofensiva, muito mais capaz de provocar desequilibrios na rigida estrutura adversária apenas com uma pequena troca;

- Ricardo. Ainda a classe de sempre. A velocidade com que antecipa tudo e sai com bola.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Não há colectivo sem bons jogadores e não há sucesso sem colectivo

Incrível a ausência de qualidade colectiva nos momentos defensivos numa das mais talentosas equipas da Europa.

Os hábitos de referências individuais sem bola a tornarem-se mais nefastos ainda por baterem num sistema táctico adversário pouco habitual. Jogadores belgas sem perceber posicionamentos. Laterais sem ninguém para marcar, fora do jogo nos momentos defensivos e centrais arrastados para fora da posição seja em profundidade seja em largura, e corredor central com imenso espaço para explorar.



E quando há espaço e a situação numérica é vantajosa? Demonstra a selecção italiana. Reforçando um post anterior. É sempre mais fácil chegar ao golo perante menor oposição e mais espaço que o contrário. "Quem não aproveita o contra ataque é estúpido. É uma ferramenta fantástica no futebol. Uma arma que tens. Quando apanhas o teu adversário descompensado tens uma oportunidade estupenda para fazer golo" José Mourinho.

O "problema" da selecção italiana é que comparada com as suas congéneres espanhola e alemã, é gritante a incapacidade para mostrar nível semelhante aos seus em ataque posicional. E mesmo que em provas a eliminar tal possa não ser impeditivo de se lá chegar, é certo que ser-se débil em qualquer que seja o momento reduz as possibilidades...


A Itália de Conte e a profundidade.

Olha-se para a selecção italiana e percebe-se o dedo do treinador. Os mesmos movimentos que realizava na sua Juventus, mas sem a qualidade de passe e de decisão das grandes individualidades que dispunha. Ainda assim, é impossível dissociar a forma como esta selecção joga, em termos de sistema e de dinâmica daquilo que Conte nos habituou no passado. Para o bem e para o mal é este o modelo de jogo em que acredita, e vai com ele para tudo.

Beneficia do facto de ter trabalhado com os três de trás mais Buffon durante muito tempo. E da forma como obstinadamente repete os movimentos ofensivos e defensivos para que se traduzam no comportamento da equipa em campo. A pressão, a forma como tenta sair, mostram que tudo tem o seu dedo. Muito por melhorar, mas o trabalho está lá.

Muito forte a dinâmica dos dois avançados, e de um médio que se movimenta por diversas vezes para receber na profundidade. E esse é um dos movimentos que trabalha mais difícil de parar. Difícil porque um dos avançados se movimenta para receber entre sectores, enquanto outros tentam explorar o espaço nas costas. Os avançados a servirem ambos como apoio frontal, por forma a atrair elementos da última linha e depois libertar nos alas. Bonucci a solicitar movimentos de ruptura com demasiada qualidade para ser verdade. A forma notável como esperam pelos laterais que aparecem de uma linha mais recuada, e variam o jogo interior com o jogo exterior. Os laterais a aparecerem muito bem a dar largura, mas sempre a fechar a desmarcação aproximando-se da baliza quando assim se impõe. Notou-se alguma desorganização defensiva onde muitos jogadores não sabiam para onde ajustar, por não ser o sistema mais equilibrado e fácil de trabalhar.

O caos, a aleatoriedade e a "estupidez de não aproveitar o jogo como um todo"

Há não muito partilhava aqui no blog as fantásticas declarações de Tuchel, o treinador do Dortmund. "...o futebol é muito complexo... é muito dinâmico. A bola está sempre a mover-se, é difícil controlar o jogo, o número de golos é reduzido e demasiado acontece de forma aleatória. Por isso é errado olhar para o resultado"sobre a forma como se deve avaliar o processo.

Pensava nesta aleatoriedade enquanto recordava um facto que o espelha. Alemanha e Espanha, selecções que nas individualidades, no colectivo e no seu estilo de posse, sempre com as decisões correctas, demonstraram o quão superiores em ataque posicional / organização ofensiva são a todas as outras que já entraram em prova... não foram capazes de chegar ao golo no momento do jogo em que mais tempo conseguem passar. Sim, conseguem. Não basta querer. 

Alemanha chegou ao golo numa bola parada e num contra-ataque. Não sendo também de negligenciar o muito perigo que foi sempre capaz de criar sempre que decidiu sair rápido em transição. Espanha com comportamentos extraordinários em ataque posicional, com gente entre linhas, criatividade, movimentos de apoio do avançado a tocar de frente nos médios já dentro do bloco adversário, com um Iniesta extraterrestre a tomar as rédeas da criação de nuestros hermanos, ainda assim, sem ter chegado ao golo dessa forma. 

Tudo porque como refere Tuchel, quando avalias o processo, é preciso saber que demasiado acontece de forma aleatória. Quer Espanha quer Alemanha as melhores em organização ofensiva não almejaram (ainda) marcar em tal momento. Mas tudo se explica pela aleatoriedade? Naturalmente que não. Será obviamente mais difícil chegar à oportunidade quando o adversário parte com dez atrás da linha da bola, do que quando se recupera a bola e sobram somente dois ou três atrás. Por isso as melhores equipas do mundo jogam consoante a situação de jogo. Capazes de em organização ofensiva manter a paciência e ter um estilo acentuado de posse como forma de desposicionar o adversário, mas também capazes de identificar os momentos para sair em ataque rápido ou em contra-ataque. Por isso, em tempos José Mourinho referiu "quem não aproveita o contra ataque é estúpido". O difícil, porém, é perceber quando se deve investir no contra-ataque e quando o parar e manter a posse. Alemanha fá-lo como ninguém. Porque tentar sair sempre em contra-ataque, independentemente do espaço e ralação numérica... é igualmente estúpido!

Importa também perceber que aproveitar o contra-ataque não se poderá nunca opor ao estilo de posse. E que quem o faz, não estará nunca a controlar o jogo, pelo simples facto de abdicar em demasia do mais importante. A bola. Tudo depende da situação de jogo. O espaço, a oposição e os colegas. É sempre a situação que determina a decisão. Há espaço e vantagem numérica impõe-se sair rápido. Perdeu-se a vantagem espacial e numérica, guarda, e troca à procura ou do desposicionamento adversário ou do chegar dos colegas aos espaços mais prometedores.

Temos Espanha!

A roja apresentou-se em grande nível, sendo que foi a equipa que teve que fazer mais em organização ofensiva tendo em conta o número de pernas e o pouco espaço que foi sempre obrigada a enfrentar. Ainda assim superou, mesmo que tecnicamente as coisas nos espaços reduzidos não tenham saído perfeitas. É notável a forma como conseguiram criar várias situações de golo, algumas delas nem deram finalização, sabendo-se da dificuldade que lhes estava a ser colocada.  É preciso admirar muito estes jogadores por isso. Sem espaço e com muitos pela frente conseguem criar como ninguém. Como se disse no início, com este grupo de jogadores, com esta criatividade, tudo é possível. Em organização ofensiva, para já os melhores.

Iniesta acaba de rubricar a melhor exibição individual do torneio até ao momento, e a bitola ficou tão alta que não sei se será possível ao longo do mesmo alguém superar. Simplesmente sublime a forma como demonstra a cada toque na bola que continua a ser, desde o século passado, o melhor médio do mundo. Nem de telescópio os outros lá chegam.