sexta-feira, 1 de julho de 2016

Não há colectivo sem bons jogadores e não há sucesso sem colectivo. Parte dois.

Bélgica a confirmar mais uma vez que se está mais perto do sucesso quando tens bons jogadores, mas que sem um colectivo de qualidade fica mais difícil fazer-se notar a qualidade. Uma das selecções mais talentosas do mundo sem qualquer tipo de ligação seja qual for o momento do jogo. Tudo deixado ao improviso de cada jogador, e é de cada uma dessas decisões que o lance acaba por se desenrolar. Na defesa e no ataque, em organização ou transição, um decide por onze. E se os outros dez não perceberem? Pois. A federação belga, que juntou esta geração de jogadores, também tem muito trabalho a fazer para melhorar o nível de jogo colectivo das suas individualidades. Ainda assim, é sem surpresa que se vê a Bélgica partir do campeonato da Europa.

Guia-nos Capitão

Pelo grupo esquecendo a notoriedade.

Pode parecer corriqueiro. Mas é disto que se fala em Ronaldo depois de há tão pouco tempo ser bem criticado.


Portugal na meia final. Curtas.

- Defender e esperar um rasgo individual. Difícil de aceitar quando o adversário não tem melhores armas. Tem resultado, facto!

- Ronaldo a entregar-se. Sem vedetismos. Sem procura excessiva de protagonismo. Merecia pela mudança radical de atitude ter tido a notoriedade que tanto adora. Perceberia mais facilmente que este é o caminho.

- Se a estratégia está identificada (defender e esperar o rasgo individual), como se pode deixar Renato desde a segunda parte esquecido num corredor lateral? Depois de uma primeira parte extraordinária, sempre a dar seguimento, com vários passes verticais a colocar a bola entre linhas adversárias, e a desequilibrar em posse quando a assumia em condução para posterior passe, como quando deixou João Mário e mais tarde já na segunda parte Quaresma em grande posição, ou quando almejou o golo, desapareceu completamente quando encostado à ala. Perceberam-se as duvidas de Fernando Santos. Muito mau no posicionamento defensivo na ala. Sempre sem se ligar com os colegas do meio campo, demasiado aberto a permitir o passe entre central - extremo adversário. Acabou a jogar do lado do banco, seguramente para ser ajudado pelo treinador. Todavia, perdido na ala perde tudo o que dá ofensivamente. 

- Moutinho e Adrien incapazes de com bola criar o que quer que seja. Adrien com diversos erros técnicos e Moutinho que mesmo quando teve espaço para progredir, travava e voltava para trás. Tudo demasiado enfadonho e sem risco. Mas talvez seja estratégia. Retardar ao máximo o empate e esperar por algo inventado por Renato, Nani ou Ronaldo.

- Rafa, o melhor de todos os portugueses para a posição de ala, continua a ver colegas muito menos aptos do ponto de vista táctico, técnico e de decisão a ocupar o seu espaço. Não se percebe bem qual é a ideia de numa equipa com pouca ligação ter alas incapazes de criar o que quer que seja. Rafa poderia criar. E não seria por ele que a ligação continuaria inexistente.

- Eliseu. Bastantes dificuldades em todos os momentos da partida. Com bola ou sem, sempre sem soluções. Individualmente foi o português que mais lacunas revelou.

- Pepe e José Fonte com notoriedade num jogo de duelos. Alguns lances com notória descoordenação... com ambos sobre a bola. Muita impetuosidade num estilo de jogo que sofrerá maiores dificuldades contra equipas com um estilo bem diferente que não o provocar duelos individuais.


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Mudaste!

Ronaldo, vai daqui um reforço positivo para o que tens sido nos últimos três jogos. A ordem dos penaltys ajudará os mais distraidos a perceber. Que mudança. 

Obrigado Capitão!

O contexto. Mas sempre com as ideias originais.

Todo e qualquer modelo de jogo tem de partir sempre da relação contexto (Jogadores, liga, objectivos) com as ideias do treinador. Há sempre adaptações por fazer. Não é diferente com Guardiola.


Quando fomos para a Alemanha, percebemos rapidamente que tínhamos de aprender a lidar com os contra-ataques e que o futebol era muito mais físico. Tivemos de misturar isso com o desejo de controlar os jogos através da posse de bola. O Bayern que venceu o triplete era muito mais pragmático. Com Guardiola, o Bayern controlava mais os jogos. Ajustou as suas ideias às da Bundesliga e vai fazer o mesmo na Liga Inglesa

O treinador perfeito não existe, mas Pep está próximo. Há pessoas que vão todos os dias para o trabalho e depois há pessoas que trabalham realmente todos os dias. Guardiola passa imensas horas a trabalhar e todos os que estão com ele têm de fazer o mesmo. Pode perder jogos, mas nunca é por falta de atenção aos detalhes. A sorte tem sempre o seu papel no futebol, mas tens que conseguir minimizar a importância desse fator, dando opções aos jogadores no ataque e explorando as fraquezas dos adversários. Todas as sessões de treino são uma lição tática baseada no adversário seguinte. Recordo que Guardiola, em sete anos como treinador, teve sempre as equipas que menos golos sofreram. Ele quer que as suas equipas tenham a bola, mas também quer que controlem o jogo quando não têm a bola

"Atendendo ao seu modo de trabalhar, é impossível que possa ficar num clube durante 20 anos. Há uma grande intensidade em tudo, física e mental. Os seus dias começam às oito da manhã e não terminam antes das 19 ou 20h." sobre o "é extremamente obsessivo" com que Lewandowski o catalogou.

Declarações de Torrent, membro da equipa técnica de Pep Guardiola.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O futebol é um lugar estranho. Alguns dados do Euro 2016.

Não tenho dúvidas de que naquilo que considero os ingredientes para uma equipa de sucesso, o passar imenso tempo em Organização Ofensiva será sempre um indicador importante.

E dentro desta ideia de boas decisões a proporcionarem um jogo paciente com bola em Organização, será melhor quem conseguir chegar com bola nas costas dos médios adversários, enquadrado com a última linha adversária. Combinações entre linhas adversárias, como o motor mais relevante para se chegar ao sucesso no momento do jogo mais complicado de o ter. Mais complicado porque a oposição será sempre muita e consequentemente o espaço diminuto. A percentagem de golos que se obtém em organização ofensiva correlacionada com o tempo que é necessário passar nesse momento para chegar ao golo é naturalmente muito diferente da percentagem de golos em transição.

Os métodos defensivos estão cada vez mais evoluídos e os menos aptos têm hoje, por isso mesmo, possibilidades maiores de serem bem sucedidos. Também por isso, em termos ofensivos é determinante não descurar momento algum do jogo. Após a recuperação cada vez mais é obrigatório sair em contra ataque ou ataque rápido. E naturalmente, perceber o momento em que as probabilidades de sucesso diminuem drasticamente para decidir segurar e iniciar o ataque posicional.

Se há algo que me impressiona na selecção Alemã, tal é a ideia de grande. As muitas armas que apresentam em ataque posicional. Os movimentos, os posicionamentos, as decisões. Ao contrário naturalmente daquilo que a nossa selecção demonstra, onde fica sempre uma sensação de incapacidade para desmontar equipas em organização defensiva.

Todavia, o jogo depende de tantas variáveis e é de tão difícil controlo que mesmo não mudando um pouco aquela que são as minhas crenças, ficam aqui alguns dados estatísticos até à presente data no Europeu que demonstram como é um lugar estranho este jogo que amamos.

Portugal - 3 golos em organização ofensiva. 60 por cento dos golos da equipa de Fernando Santos a surgirem dessa forma!

Com maior percentagem de golos em organização ofensiva somente: França - 66.6 por cento. Outra selecção cuja falta de criatividade e incapacidade para criar sucessivamente dificuldades aos adversários nos seus momentos de organização ofensiva é latente! E por fim, e desta feita sem surpresa, a Espanha. Com 80 por cento dos golos a chegarem no momento de organização ofensiva. Espanha e Inglaterra, as únicas equipas das teoricamente mais fortes que sairam do torneio sem qualquer golo em Transição.

A poderosa nos momentos ofensivos Alemanha com apenas 33 por cento dos golos no momento em que passa praticamente os jogos todos. Metade dos golos alemães chegaram de bolas paradas.

E alguns dados interessantes. Croácia, uma equipa que demonstrou uma capacidade fantástica de preservar a bola e de criar, a chegar maioritariamente ao golo (60 por cento) em transições ofensivas (Portugal retirou-lhe tal momento). Ainda com percentagens de golos relevantes em transição, Gales (42 por cento) e a Bélgica (50 por cento dos golos em transição ofensiva, 25 em bolas paradas e outros 25 em organização ofensiva).

Por fim, dados curiosos da Itália. Aquela que menor relevância estatística apresenta num único determinando momento nos golos que almejou. 40 por cento em Organização Ofensiva. 40 por centro em Transição Ofensiva e 20 por cento nas bolas paradas.

Dados que na verdade não revelam absolutamente nada para além de que o futebol é um lugar estranho, o controlo nem sempre é possível e perceber o processo será sempre mais importante para nortear o caminho.


Itália, sem surpresa, pois claro.

"Achar que esta Itália não joga nada à bola é não perceber nada de bola" A frase de um Jornalista do Maisfutebol é concisa, venenosa e de uma incrível assertividade.

Nos textos que tocavam a selecção italiana já por aqui pelo Maldini (destacando o ataque rápido) e sobretudo pelo Blessing (referindo todo o processo) se tinha abordado a competência dos comandados de Conte. É certo que individualmente apesar de vários jogadores interessantes, com um destaque claro para Bonucci, os italianos estão muito distantes de selecções como a Espanha e a Alemanha. Todavia, colectivamente são uma equipa com processos extraordinários.

Conte é um dos treinadores do futebol mundial com maior capacidade para retirar o caos e reduzir ao máximo a aleatoriedade do jogo. Num estilo talvez até demasiado determinista, o italiano prepara sempre as suas equipas para serem competentes em todo e qualquer momento que encontrem nas suas partidas. Dá-lhes armas para que em competição haja sempre um guião, um porto seguro. Um saber o que fazer, um saber onde estão os colegas. Nunca se perdem no campo! Dá armas aos jogadores que os tornam sempre um colectivo. Já havia sido assim na Juventus. 

Se depois consegue passar mais ou menos tempo em ataque posicional tal já depende sempre da qualidade dos intérpretes. Na Juventus na Liga italiana com melhores jogadores que os adversários passava o tempo quase todo em organização ofensiva. Quando o adversário tem melhores jogadores muito mais difícil fica conseguir "dominar" o jogo. Todavia, é garantido que as suas equipas estarão preparadas para todos os momentos e não será por falta de trabalho táctico e conhecimento do jogo que cairão. Com Conte é garantido que se percebe o que está a acontecer e que se sabe responder em função disso.

É sempre um espanto quando alguém consegue subjugar a selecção espanhola com tamanha facilidade. Mas não é um espanto perceber que a Itália de Conte seria sempre uma das poucas a nível mundial capaz de o fazer. Porquê? Porque colectivamente é uma equipa que sabe interpretar e responder. Sabe quando e como sair em ataque rápido após cada recuperação. Sabe em organização defensiva definir espaços e timings de pressing. E tem movimentos e trabalho muito acentuado também em organização ofensiva. Partindo do conhecimento táctico que faz do jogo é sempre possível vencer os adversários que têm mais qualidade. Mesmo que o favoritismo esteja completamente do outro lado. 

Dificilmente o campeão europeu não sairá do lado direito da tabela. E a Itália que já derrotou na presente prova dois adversários bastante mais fortes individualmente que si própria, será das pouquíssimas equipas mundiais que tem capacidade para contrariar a melhor equipa do torneio. A Alemanha. A melhor porque em cima de um processo colectivo fantástico em todos os momentos, tem também os melhores jogadores.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Itália de Conte: Ideias para todos os momentos ofensivos.

Absolutamente devastadora a primeira parte italiana, onde o resultado peca por escasso. Ontem a Alemanha a mostrar-se muito competente no ataque posicional, hoje a Itália menos competente na organização do ataque ainda que o faça com uma intencionalidade clara. Sabem o que fazer, como fazer, quando fazer. Todos focados nisso. Mas, o festival tem sido de ataque rápido e contra-ataque. Cada vez que recupera e consegue sair, uma lição para o mundo. Fernando Santos ontem disse que não tinha tempo de treino e por isso, por exemplo, a transição ofensiva não sai tão bem. Discordo. A transição deve ser das coisas mais fáceis e intuitivas para os jogadores. Então falando de jogadores deste nível... Conte mostra. Concorde-se ou não, a equipa está trabalhada para tudo. O adversário perfeito para os italianos explanarem aquilo em que realmente são fortes, mas, em organização não jogam de forma aleatória. Muito mecânico, é certo, mas tudo com sentido.

"Muito forte a dinâmica dos dois avançados, e de um médio que se movimenta por diversas vezes para receber na profundidade. E esse é um dos movimentos que trabalha mais difícil de parar. Difícil porque um dos avançados se movimenta para receber entre sectores, enquanto outros tentam explorar o espaço nas costas. Os avançados a servirem ambos como apoio frontal, por forma a atrair elementos da última linha e depois libertar nos alas. Bonucci a solicitar movimentos de ruptura com demasiada qualidade para ser verdade. A forma notável como esperam pelos laterais que aparecem de uma linha mais recuada, e variam o jogo interior com o jogo exterior. Os laterais a aparecerem muito bem a dar largura, mas sempre a fechar a desmarcação aproximando-se da baliza quando assim se impõe." Aqui.

domingo, 26 de junho de 2016

Ataque organizado

A selecção alemã a dar mais uma grande lição ao mundo sobre a forma de colocar os jogadores em campo quando o adversário defende com muitos. Lição muito importante que todo o futebol em Portugal deveria olhar com atenção.


Hummels e Boateng adiantados, e abertos. Caso Hummels seja pressionado de imediato Boateng reage e recua para lhe dar uma opção de passe mais segura pela direita. Kroos a garantir uma opção segura pela esquerda, e a cobertura no caso de Hummels tentar agredir o bloco adversário em condução. Kimmich largo e profundo, mas apenas com a largura necessária tendo em conta o posicionamento do bloco eslovaco, uma vez que com a bola do lado contrário interessa mais receber na profundidade do que em apoio. Hector largo e profundo no corredor mais perto da bola. Com largura máxima por forma a abrir a equipa eslovaca onde interessa que ela abra, ou então para receber com espaço. Khedira dentro do bloco atrás da pressão a aproximar-se da bola. Draxler prepara-se para se mostrar atrás da pressão, assim como Muller. Todos no corredor central, mas sempre a possibilitarem soluções de passe diferentes para o portador da bola. Ozil, também dentro do bloco mais afastado da bola, e Gomez a segurar e a provocar a linha defensiva com a possibilidade de ruptura. E quando perdem a bola? Reacção fortíssima e agressiva sobre a bola.

Dito isto, alguém imagina onde estará Neuer?

A mudança de Pogba

Ao ver o jogo entre a selecção francesa e a irlandesa perceberam-se duas partes com um perfil completamente distinto. A primeira onde as acelerações foram constantes, e por isso os erros técnicos e na tomada de decisão a subirem de forma exponencial, e uma segunda parte mais tranquila onde uma equipa (a única que tinha obrigação de o fazer pela qualidade individual que goza) controlou e ditou os ritmos de jogo com bola. A mudança ocorre por vários factores dos quais me interessa citar dois: 1) O intervalo. Com os jogadores a terem tempo para esfriar a cabeça, perceberem que os erros se deviam sobretudo à velocidade constante que eles queriam dar ao jogo, e que com esse tipo de jogo não estavam a ser capazes de chegar com perigo e ainda estavam a conceder demasiado espaço. 2) A mudança de Pogba. Da primeira para a segunda parte se não tivesse a mesma camisola diria com a mais absoluta certeza que não era o mesmo jogador.

Foi a mudança de Pogba de dentro para fora do bloco, e não a entrada de Coman, que fez toda a diferença no jogo francês, e com isso a selecção ganhou um perfil de jogo completamente diferente. Ganha imensa qualidade nas acções de construção, onde ele conseguiu libertar quase sempre colegas com espaço, e também na transição ofensiva o critério foi completamente diferente. Recuperava e entregava na melhor opção, sempre pelo chão. Foi tão bom para o jogo francês como foi para Pogba porque ele tem, de facto, muita qualidade. Mas é fora do bloco que se pode tornar num caso verdadeiramente apaixonante. Insuperável na primeira bola, nos duelos, e com muita qualidade para decidir com muitos atrás da linha da bola. Entendo que pela sua morfologia se queiram aproveitar dessa característica para a primeira e segunda bola, que pela sua capacidade técnica e boa média distância se queira que apareça em zonas próximas da baliza. Mas é precisamente nessas zonas que o seu pior jogo aparece, porque sob-pressão, nas zonas de stress, erra constantemente, e mete-se em problemas que não tem competência para resolver. Acaba invariavelmente por perder a bola ou por a entregar ao adversário por erros técnicos, ou por erros de decisão, por ser um jogador que precisa de espaço para o seu melhor jogo aparecer. O critério com que a equipa francesa tentou na segunda parte atacar, ao contrário da primeira, foi completamente diferente e para isso bastou colocar um jogador importante onde as suas melhores qualidades aparecem e onde os seus defeitos se escondem. Onde tudo começa, na construção, França precisa de jogadores que acrescentem ao jogo ofensivo, que não façam apenas o óbvio, para que se crie e depois finalize em melhores condições, e tanto a equipa como Pogba sairiam beneficiados caso ele fosse o principal responsável pela construção jogando como médio mais recuado.